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Resenha: Maus | Art Spiegelman

Eu confesso que demorei a ler por preguiça. Nós temos muitas histórias do holocausto – ainda bem -, mas não raro elas caem no lado melodramático hollywoodiano. Às vezes eu custo a entender o que exatamente alguns filmes querem realmente dizer sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi com esse sentimento, com essa falta de esperança, que fui ler “Maus”.

Maus, de Art SpiegelmanTodos devem saber disso, mas resumindo o plot: “Maus” é um quadrinho (inho mesmo, os quadros são bem pequenos) em preto e branco que narra a vida de um polonês judeu, Vladek Spiegelman, e de sua família e conhecidos durante a Segunda Guerra Mundial na Polônia. A história é narrada pelo próprio Vladek a seu filho – o autor Art Spiegelman – vários anos depois. A esta altura, na virada para a década de 1980, Vladek já vive há décadas em Nova York, casou-se novamente e seu filho, Art, já é um quadrinista estabelecido.

Art se interessa pelas memórias de seu pai, se dispõe a escutá-lo e é de sua própria narração que é reconstruída a história que acompanhamos. Obedecendo à irregularidade da memória, Vladek relembra episódios ordinários, cotidianos. Acompanhamos os anos logo anteriores à guerra enquanto as vidas seguem normalmente: casamento, família, negócios. Aos poucos, tudo aquilo vai sendo destroçado.

Não gosto de contar muito sobre a trama, mas basta relembrar aqui o subtítulo do livro: “história de um sobrevivente”. Foram anos de guerra durante os quais Vladek passa pelo front de batalha, trens, gueto, esconderijos e por fim, Auschwitz. Ao longo desse caminho há fome, humilhação, doença, frio, violência e perdas. Muitas. A força de “Maus” está aqui nessas perdas, nessa degradação humana a tal ponto que se torna realmente impossível reconhecer ali um homem – seja de qual lado for. Afinal de contas, se judeus – e todas as outras minorias perseguidas (não vamos nos esquecer de comunistas, ciganos e pessoas com qualquer deficiência) – eram ratos, haveria humanidade naqueles que infringem o sofrimento? Ou naqueles que fecham os olhos?

“Maus” ajuda muito a pensar também em responsabilidades. Durante a leitura quase não há menção à Hitler ou à alta cúpula cujos nomes sempre aparecem quando se fala se Segunda Guerra. Os algozes estavam na linha, nos campos de concentração, nas guardas nas cidades. Fico pensando nos vários relatos que escutamos por aí: “nós não sabíamos”. Não saber de campos de concentração isenta dos preconceitos, depois transformados em reais crueldades, cometidos contra outros seres humanos?

Encerro dizendo que “Maus” é uma leitura recomendada a todos. Sem exceção. É um relato pessoal (na verdade dois, pois também temos a parte da relação com o filho, Art, que é bem interessante) de até onde o ser humano pode chegar. É também, por isso mesmo, uma lembrança, um chamado. Em tempos de linchamentos e Scheherazades, é bom lembrar onde tais pensamentos já levaram a humanidade.

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Título original: Maus
Ano de publicação: Originalmente publicado em duas partes, em 1986 e 1991.
Idioma original: Inglês

Título em português: Maus
Ano de publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
298 páginas

Esboços: Vitor Cafaggi

Conheci o trabalho do Vitor Cafaggi no maior acaso do mundo. Estava na FIQ em 2011 por ocasião do lançamento da HQ de um colega de universidade (o Lipão – ou Garrocho, como ele assina – e seus companheiros Damasceno e Bruno Ito – acho que escreverei sobre eles também) para o qual eu havia contribuído através do Catarse, um serviço de crowdfunding. No mesmo stand estavam outros quadrinistas com seus primeiros trabalhos sendo publicados através do selo Pandemônio. Decidi, então, totalmente no escuro e no espírito ajudar artistas independentes e conhecer coisas novas, comprar mais algumas coisas. E foi assim que cheguei em “Valente para sempre”.

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É claro, eu estava atrasada nesse bonde. A essa altura do campeonato o Maurício de Souza já tinha encontrado os Cafaggi (a irmã também, Lu) e eles estavam anunciando no FIQ que iriam escrever e desenhar uma história para a Turma da Mônica.

Valente me ganhou. Foi uma das coisas mais bonitinhas que já tinha tido o prazer de encontrar, um lindo acaso. Fui correndo ler “As aventuras de Puny Parker”, tirinhas que têm como protagonista um pequeno Peter Parker, muito muito antes de virar o Homem Aranha. O espírito é bem parecido com o de “Valente”, com o pequeno Peter e suas desventuras amorosas atrás da Mary Jane. Uma fofura.

Valente para sempre

No ano seguinte, na Bienal do Livro de Minas, encontrei o Cafaggi mais uma vez sentado em seu stand e com mais um trabalho: o lindo “Duo.tone”. Indiscutivelmente uma das coisas mais lindas que já li na minha vida. O desenho, os traços delicados, as histórias simples, mas que remetem às lembranças mais queridas e fortes da nossa infância, aquelas memórias decisivas, que embora longe de serem grandiosas são partes fundamentais de quem somos, quem nos tornamos.

Duo.tone

Para mim, é disso que se trata o trabalho do Cafaggi. É sobre os pequenos grandes dramas da infância e da adolescência, como fica claro em seus quadrinhos mais conhecidos: “Valente” e “Laços” (história lançada para a Turma da Mônica). E ao tratar das memórias dessa época de nossas vidas ele consegue despertar as emoções mais queridas e fortes, porque de alguma forma aquilo que está relacionado à infância (e também à juventude de maneira geral) acabam se tornando as bases sobre as quais nos construímos.

Espero comentários sobre suas leituras do Cafaggi ou de quaisquer outros autores que provocam esses tipos de sentimentos! =)

Blog do Cafaggi: http://punyparker.blogspot.com.br/

Feira: Janeiro de 2014

Se no ano de 2013 eu fui uma pessoa ultra comportada no quesito compras de livros, atendo minhas leituras ao que eu já tinha na estante ou no Kindle, 2014 começa com uma amostra preocupante. Se o primeiro mês do ano ditar o tom do ano, posso dizer que daqui a onze meses estarei com um rombo bancário preocupante.

 

Cosac Naify: promoção de virada do ano

– História do pranto, Alan Pauls
– História do cabelo, Alan Pauls
– O sonho dos heróis, Adolfo Bioy Casares
– Coração, Edmondo de Amicis

 

Livraria Leitura: vi e queria imediatamente

Valente para todas, Vitor Cafaggi
Valente por opção, Vitor Cafaggi

Fnac: surto de quadrinhos (que coincidentemente estavam em alguma promoção)

Maus, Art Spiegelman
– Laços, Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
Azul é a cor mais quente, Julie Maroh

Cosac Naify: mais promoção…

Os miseráveis, Victor Hugo
– A máquina de fazer espanhóis, Válter Hugo Mãe
– Bonsai, Alejandro Zambra
A vida privada das árvores, Alejandro Zambra

Ainda não me decidi sobre o que acho da Cosac Naify: amo por suas lindas edições e um mês de promoções, ou odeio – também pelas promoções? O problema dos descontos é que eles aparecem de uma hora pra outra e sabemos que são efêmeros, temos que nos apegar àqueles preços antes que eles desapareçam. E aí, é claro, vemos no final do mês um saldo problemático, fruto desses desesperos. E nem estou contando aqui outras compras que ainda não acharam seu caminho até minha estante….

Alguém mais enfiou o pé na jaca este mês?