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#LendoADitadura: Sombras de reis barbudos | José J. Veiga

Às vésperas de um episódio que sem sombra de dúvidas entrará para os acontecimentos mais importantes da história do Brasil, resolvi finalmente publicar sobre o livro Sombras de reis barbudos, do goiano José J. Veiga, que li ainda no ano passado como parte do projeto Lendo a Ditadura, criado pela Paula Dutra do blog Pipa não sabe voar.

Sombras de reis barbudos foi publicado em 1972, no período mais repressivo, mais duro da ditatura militar no Brasil. Conta a história de uma cidadezinha na qual se instala uma fábrica, empreendimento do tio do narrador da história. O tio chega cheio de ideias de modernidade, de inovação. Contudo, logo é deposto do seu posto de diretor da fábrica e afastado mesmo da cidade. A fábrica, neste ponto central para a população local, passa a concentrar mais e mais poder, a ponto de ditar regras para as pessoas e para a cidade.

São construídos muros altos pela cidade a ponto de as pessoas não verem umas às outras, a vigilância para o cumprimento das leis impostas pela fábrica é dada a alguns fiscais – dentre eles, o pai do narrador da história, que usa uma farda impecável para se diferenciar dos não-fiscais.

A história é toda uma alegoria aos regimes repressivos, mas o que mais me chamou a atenção foi ser contada do ponto de vista de um menino que vê seu cotidiano ser afetado. Não se trata, como algumas das narrativas mais famosas sobre o assunto, de pessoas diretamente envolvidas na briga política dentro de partidos ou movimentos sociais, seja para um lado ou outro. Trata-se, em Sombras de reis barbudos, de como o medo e o distanciamento em relação aos outros se instalam em nossas vidas de maneira quase imperceptível. De como esse próprio medo dirigido a tudo e a nada nos impulsiona ao ódio contra o outro.

Poderes ilimitados, a vigilância constante que um grupo é capaz de exercer sobre todo o resto, também é associada a um tema que hoje é tema central de todas as discussões sobre política no país: a corrupção. Os fiscais escolhem quem e o que vigiar, denunciar e punir, campo aberto para a “troca de favores”, para o uso do que seria público em benefício particular. (Talvez seja válido, a essa altura, aquele questionamento clássico de Alan Moore em Watchmen: quem vigia os vigilantes? – Moro, Gilmar Mendes, Globo & cia., here’s looking at you.)

Durante toda a história não sabemos o que a fábrica faz. Fábrica de que, para que…? Este estado de incompletude quanto ao quadro geral vai se intensificando ao longo da história: os próprios personagens não parecem saber muito do que acontece, salvo pelo fato de estarem sob vigilância fechada. É uma ignorância aprisionadora.

A mensagem ao final é esperançosa, embora sombria. Sem poder olhar para o lado, sem estabelecer vínculos, as pessoas passam a olhar para o céu, a admirar os urubus que sobrevoam a cidade – e por fim passam, elas mesmas, a voar. O final me pareceu aberto às interpretações: o vôo é subversão ou mero passatempo? É tática de insurgência ou fuga da realidade?


Sobre o vídeo do Leia a Ditadura

Desde que fiz o vídeo sobre o projeto, mudei muitas coisas que penso. Mesmo porque li mais, conversei mais… Foi bom, mas há tempo que guardo algumas coisas para falar, que tinha planejado dizer em vídeo, mas já que não estou fazendo vídeos, digo aqui.

A Paula me alertou para algo logo que o vídeo saiu e de fato eu falei algo de modo muito simplificado e, desta forma, acabei dizendo outra coisa. Eu disse que não seria uma aula de história a mudar as ideias das pessoas acerca da ditadura militar no Brasil, e quero consertar essa fala.

Pensei, naquele momento, na ideia de uma aula de história estilo “aulão” de cursinho ou mesmo a uma ideia que tem sido muito veiculada em memes na internet que ligam a história a ideia de verdade. É comum ouvirmos que “a história revelará a verdade” ou que “é preciso conhecer a história para estar do lado certo”. Defendo, sim, o ensino de história e a história como disciplina. Quando disse o que disse, me referia a esta concepção de história factual. Neste sentido, reitero que não seria uma aula factual de história que mudaria a visão das pessoas.

Entretanto, acredito que o conhecimento histórico é importante porque evidencia os embates pela construção de uma narrativa histórica: por que acreditamos no que acreditamos, como foi construída essa ideia e, em muitos casos, os interesses que estão envolvidos. É preciso evidenciar que a narrativa histórica é construída pelo homem, que tem pontos de vista, visões de mundo, experiências etc. Isso tudo tudo varia com época, contexto social, experiência particular e do grupo imediato (minha experiência de mundo, hoje, é absolutamente muito diferente da que tem o filho do Eduardo Campos, alguém da minha geração, meu contemporâneo e com quem partilho a mesma nacionalidade).

Outro dia vi um conhecido da história postar no Facebook sobre a besteira que é dizer que “o brasileiro não tem memória da ditadura”. (Falou com aquele ar de soberba que 99% dos historiadores ostenta.) Eu mesma disse isso, mas a fala dele foi provocativa e me fez repensar muita coisa. Achei interessante e, no final das contas, o ponto dele serve para isto que estou falando, que o discurso histórico está sempre em disputa. A gente vê isso nas lutas pelo significados: ditadura, por exemplo. Quando alguém pede a volta da ditadura, entende o que por ditadura? Quando diz que é ok torturar bandido: o que é tortura, o que é bandido?

(Também queria reiterar que embora as Comissões da Verdade de outros países da América Latina tenham acontecido, eles sofrem em muitos casos dos mesmos problemas que nós com a Lei da Anistia. Embora a situação seja bem diferente da nossa em torno das significações de ditadura, preciso destacar que, ao contrário do que disse no vídeo, o resto do mundo não é perfeito em termos de legislações e tampouco encerraram o assunto.)

Por fim, gostaria de indicar um filme que foi muito importante para mim no sentido de entender mais profundamente os problemas das ditaduras na América Latina. Antes achava que tinha sido um problema apenas meu, mas as muitas falas relativizando a ditadura no Brasil e afirmando que “foram torturados apenas aqueles que caçaram briga” me fizeram repensar isso. O pesado discurso que se tem em cima da ditadura, promovido pelos grandes meios de comunicação, toca principalmente na censura. No fato de que não se poderia criticar o governo sem sofrer represálias. Mas sempre faltou falar do por que o governo seria criticado. Enfim, assistam Machuca:

Projeto: Por que ler os clássicos

Decidi colocar em prática e publicizar um projeto sobre o qual venho pensando já há uns bons meses.

O Projeto Por Que Ler os Clássicos é baseado no livro de mesmo nome do escritor italiano Italo Calvino, que contém pequenos capítulos sobre 32 textos ou autores considerados clássicos da literatura mundial.

Por que ler os clássicos, Italo CalvinoNão estou colocando prazo para isto no momento, mas estando o projeto criado, acabamos direcionando, aqui e ali, as leituras para o que está proposto. Também não me prenderei a ler na ordem – vou indo no que me der vontade. Ainda não procurei por traduções de todos os livros e nem sei se todos estão em português (na edição que tenho de “Por que ler os clássicos”, da Companhia de Bolso, vários estão com títulos não traduzidos), então recorrerei a idiomas estrangeiros que domino o suficiente para me aventurar na leitura (espanhol e inglês – o alemão, coitado, foi ficando para trás sem nunca ter estado exatamente à frente).

Segue a lista de obras/autores que mereceram um capítulo no livro do Calvino:

A Odisséia, de Homero
Anábase, de Xenofonte
Metamorfoses, de Ovídio
História natural, de Plínio
As sete princesas, de Nezami*
Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell e Martí Joan de Galba / Don Quixote, de Miguel de Cervantes**
Orlando furioso, Matteo Maria Boiardo
De propria vita, de Gerolamo Cardan
Galileu Galilei
Histoire comique des états et empires de la Lune, de Cyrano de Bergerac
Robinson Crusoe, de Daniel Defoe
Cândido, de Voltaire
Jacques, o fatalista, e seu amo, de Denis Diderot
Giammaria Ortes
Stendhal
Balzac ***
Our mutual friend, de Charles Dickens
Três contos, de Gustave Flaubert
Dois hussardos, de Lev Tolstói
O homem que corrompeu Hadleyburg, de Mark Twain
Daisy Miller, de Henry James
O pavilhão nas dunas, de Robert Louis Stevenson
Joseph Conrad
O doutor Jivago, de Boris Pasternak
La cognizione del dolore / Quer pasticciaccio brutto de via Merulana, de Carlo Emilio Gadda
Eugenio Montale
Ernest Hemingway
Francis Ponge
Jorge Luis Borges
Raymond Queneau
La luna e i faló, de Cesare Pavese

*Esse vai ser complicado, parece que o Calvino se refere a uma tradução específica para o italiano, feita por Alessandro Bausani.
** O capítulo parece discorrer sobre vários romances de cavalaria, sobretudo na relação entre as duas obras citadas. Vou escolher apenas uma para o desafio.
*** Calvino fala especificamente da cidade na obra de Balzac. Assim, ainda farei uma seleção de histórias que se encaixem na temática.