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Resenha: Só para fumantes | Julio Ramón Ribeyro

Nunca tinha ouvido falar do peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994). Até onde eu sei, Só para fumantes é a primeira aparição do autor no Brasil. Esta coletânea de contos nem mesmo existe em língua espanhola: trata-se de uma seleção de contos publicados em diversos livros diferentes, publicados entre 1955 e 1992. Ou seja, até hoje o autor nem mereceu uma obra sua traduzida na íntegra.

JulioRamonRibeyro

Baseada nos contos deste livro, posso dizer que não entendo como não temos mais dele por aqui. Sim, gostei muito.

Os contos de Ramón Ribeyro são atordoantes. Tratam do ordinário, do cotidiano; seus personagens são pessoas sem brilho, em muitos casos à margem da sociedade. Gente invisível em situações medíocres: uns desempregados, um poeta fracassado, gente que vive de lixo… Todos com sonhos – ou mais bem dito, ilusões tanto de um futuro, quanto do passado. Isto é algo especialmente interessante nos personagens de Ramón Ribeyro, pois tratam-se de pessoas que não apenas criam expectativas para o futuro, mas que vivem muito do passado; passado este criado, recriado, distorcido e adequado aos desejos, ilusões, medos e fantasmas do presente.

SóParaFumantesTemática constante também é a da cidade. O autor concentra-se sobretudo em centros urbanos (na maioria dos casos, Lima), evidenciando aspectos da vida urbana, denotando em muitos momentos os problemas da modernização no Peru (e poderíamos pensar, na América Latina como um todo): o desemprego, a criação das favelas, os lixões, etc. Também evidencia a fluidez da cidade, a mudança constante, o ritmo mais corrido.

Os contos buscam as mesquinharias humanas, a desilusão, o deboche e a humilhação – provocam sentimentos de nojo e pena. Entretanto, terminam sempre em tom positivo, com uma esperança. Invariavelmente esta esperança é baseada em algo pequeno, insignificante mesmo, o que nos faz pensar sobre os nossos desejos e nossos mecanismos para buscar a felicidade: nossos sonhos e expectativas mudam de acordo com nossas perspectivas.

Esta coletânea de contos de Julio Ramón Ribeyro eu um tapa na cara. Eu até queria dizer mais do que isso, mas sinceramente não consigo.

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Os contos aqui reunidos foram publicados originalmente em vários livros diferentes. Este item trata-se de uma edição publicada, até o momento, somente no Brasil.

Título: Só para fumantes
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
304 páginas

Resenha: A fantástica vida breve de Oscar Wao | Junot Díaz

But no matter what the truth, remember: Dominicans are Caribbean and therefore have an extraordinary tolerance for extreme phenomena. How else could we have survived what we have survived?
(p. 155)

“A vida breve de Oscar Wao” (ganhador do Prêmio Pulitzer de Ficcção em 2008) me pegou desprevenida. De tudo o que achei que ele poderia ser, foi diferente – e foi mais. As sinopses falam geralmente da experiência do imigrante nos Estados Unidos ou da “nerdice” do personagem principal, Oscar – mas há muito mais nesse livro. Eu diria que é uma saga: a saga de uma família dominicana desde a Era de Trujillo (general que comandou a República Dominicana de 1930 a 1961) até o fim dos anos 1990.

a-fantastica-vida-breve-de-oscar-waoAcompanhamos o jovem Oscar, filho de dominicanos nascido nos EUA. Oscar representa aquela encruzilhada na qual vivem tantos filhos de imigrantes: ele não pertence a lugar nenhum e a grupo nenhum. Não é dominicano porque é gordo, nerd e não é o modelo de macho alfa. Tampouco pode ser americano porque é, primeira e unicamente, latino. A explicação para o azar de Oscar é, obviamente, o sobrenatural: a família carregaria alguma maldição, ou fukú, como é comumente chamada na República Dominicana. O fukú teria origem nos navios negreiros vindos da África, na própria escravidão. É a maldição do Novo Mundo.

Para falar de Oscar, é preciso falar de sua família: irmã, mãe, avós. Para falar das complicadas relações familiares e da comunidade dominicana nos EUA, é necessário retornar à República Dominicana e desenterrar demônios – o que não é fácil. Com uma história de repressão, acostumou-se a não falar, a calar, e a encontrar respostas, cada vez mais, no sobrenatural.

Shit was so tight that people actually believed that Trujillo had supernatural powers! It was whispered that he did not sleep, did not sweat, that he could see, smell, feel events hundreds of miles away, that he was protected by the most evil fukú on the Island. (You wonder why two generations later our parents are still so damn secretive, why you’ll find out your brother ain’t your brother only by accident.
(p.235)

Vários dos problemas nas relações interpessoais neste livro têm origem neste silêncio. As coisas são ditas pelas metades, o passado é a página em branco sobre a qual ninguém quer escrever. É doloroso demais e melhor deixado quieto. O problema da famíliar de León é o problema da América Latina, esse de escarafunchar o passado duro, enfrentar e olhar de frente nossas falhas. No Brasil, por exemplo, estamos apenas nos últimos dois anos abrindo os arquivos da ditadura! Faltam debates sobre nossa polícia militarizada, sobre censura, sobre racismo (abolimos a escravidão, sob muitos protestos, há pouco mais de 100 anos!). Falta falar muito ainda.

Quanto à linguagem, eu diria que Junot Díaz conseguiu dar voz ao imigrante. Seu livro é escrito numa espécie de Spanglish: se o grosso está em inglês, não deixa de estar cheio de palavras e expressões inteiras em espanhol – em com gírias. Acho que quem já viveu por algum tempo em outro país e conviveu, enquanto fora, com alguns conterrâneos, entende bem isso. É uma mistura de idioma e de referências culturais que falam muito desse sem-lugar que está o imigrante. Além dessa mescla de idiomas, Díaz traz ainda várias alusões a livros, jogos, filmes, séries e quadrinhos na narrativa (lembremos, Oscar é um super nerd). Fiquei pensando como se pode contar a mesma história de mil maneiras diferentes dependendo de nossas referências.

brief wondrous life of oscar waoPor fim, eu gostaria de lembrar que, embora o tema da imigração pareça um pouco distante (hoje o Brasil está em condições até de receber estrangeiros – não só os nossos vizinhos, mas também europeus e americanos) e nós nunca tenhamos visto uma emigração tão grande quanto outros países viveram em suas histórias recentes, até pouco tempo atrás nosso sonho, assim como o de toda a América Latina, era emigrar para os Estados Unidos. Em 2005 a principal novela da Globo era justamente “América”.  Junot Díaz trata dessa saída de gente de seu país de Diáspora. Chega a falar da Alemanha nazista quando diz que, infelizmente, o Trujillato não nutria o mesmo apreço pela documentação que os alemães. E embora o autor não fale exatamente isso, eu deixo aqui então o que eu quero falar: por que numa história de catástrofes, ditaduras, silêncios, espancamentos, desaparecidos e mortes a torto e a direito, umas tragédias são mais tragédias que outras?

Nós temos uma história complicada. Nós brasileiros, nós latino-americanos. Nestes tempos de escalada do conflito entre Israel e Palestina, muito se fala de genocídio, violência, raízes históricas… Estamos tentando entender o Oriente Médio, temos incontáveis livros e filmes sobre o holocausto (palavra que vem sempre com uma espécie de subtítulo: a maior tragédia da história da humanidade). No entanto, pouco fazemos para entender nós mesmos e a nossa sociedade. Não estou dizendo que o de lá é menos importante, mas que podemos e devemos tentar nos compreender. Afinal de contas, entendo que não falar dos nossos conflitos e tumultos é passar a ideia de que não temos problemas. E eu não conheço uma pessoa sequer que ache que nós não temos problemas.

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Título original: The brief wondrous life of Oscar Wao
Ano de publicação: 2007
Idioma original: Inglês

Título em português: A fantástica vida breve de Oscar Wao
Ano de publicação: 2009
Editora: Record
336 páginas

Feira: Março de 2014

Para as aquisições de livros em março de 2014, resolvi fazer um videozito.

Feira de livros da UFMG
– O beijo de Lamourette, de Robert Darnton
– O espetáculo das raças, Lilia Moritz Schwarcz
– O sabor do arquivo, Arlette Farge
– Cibercultura, Pierre Levy
– Por que ler os clássicos?, de Italo Calvino
– O barão nas árvores, de Italo Calvino
– As cidades invisíveis, de Italo Calvino
– Cada homem é ma raça, de Mia Couto
– E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
– Terra sonâmbula, de Mia Couto
– Habibi, de Craig Thompson

Livraria Travessa
– Pavor espaciarde Gustavo Duarte

Livraria Cultura
– Little women, de Louisa May Alcott
– Sense and sensibility, de Jane Austen

Estante Virtual
– O obsceno pássaro da noite, de José Donoso

Café, pão de queijo e… O Passado

É difícil escrever sobre esse livro, falar sobre ele; às vezes não sei o que entendi. Fiquei pensando no “sobre”: sobre o que é o livro? Do que trata essa história? No final das contas, “O Passado” é sobre o amor, sim, mas um amor obssessivo, doentio, que passa longe do amor romântico.

O passado, de Alan PaulsO livro começa já com o término do casal milenar Rímini e Sofía. Digo milenar porque é assim que parece que eles se entendem e que o mundo entende eles. Ficaram juntos durante doze anos, mas o choque que o fim da relação causa não só neles mesmos, mas em todos que os rodeiam, dá a entender que é como se aquilo fosse antinatural – o fim de uma era.

Embora a narrativa siga uma linha mais ou menos cronológica, em vários momentos somos transportados ao passado através da memória de Rímini (que é quem acompanhamos), resgatando momentos nos quais ele e Sofía ainda estavam juntos, episódios específicos e aparentemente supérfluos, mas que de alguma maneira se conectam com o presente, com algo normalmente imperceptível que só Rímini nota e o faz viajar em suas lembranças e sensações. Aliás, me chamou a atenção especialmente esse jeito de ir e vir: Alan Pauls utiliza frases super longas, cheias de apostos, de parêntenses, extrapola uma observação para depois voltar… E começa tudo de novo. Tenho que admitir que por vezes isso me cansou (existem páginas e páginas, por exemplo, de uma história totalmente marginal), mas por outro lado somos assim. Quero dizer: não pensamos linearmente (pelo menos eu, não!), muitas vezes começamos em um assunto para, escorregando para cá e para lá, cair em outras histórias, lembramos de um episódio, vamos viajando. Nesses zigue-zagues acabamos conhecendo mais de Rímini, da sua maneira de relacionar as coisas, das suas memórias que não são necessariamente sobre os grandes episódios da sua vida, mas do pequeno, do que a outros olhos pode ser insignificante, mas que são pilares do que ele é.

Rímini tem outros relacionamentos, mas durante todo o livro Sofía é constante presença, seja nas memórias, seja em suas óbvias memórias, acasos impossíveis, encontros aleatórios ou inevitáveis. Suas vidas já foram entrelaçadas demais e parece que nenhum dos dois quer largar daquilo.

Outro dia li este artigo no Ñ, do Clarín, sobre um estilo literário que poderia ser considerado para homens, e lá está Alan Pauls. Apesar de tudo o que se possa dizer contra isso, entendo em certas medidas, pois realmente em vários momentos foi difícil para mim entender algumas das mulheres em “O Passado”, especialmente Sofía. Claro, eu só posso falar da minha própria experiência como mulher, mas algumas coisas me pareceram estranhas e cheguei mesmo a pensar “Mas eu não conheço nenhuma mulher que faria/diria isso!”. Mas também pode ser o caso de estarem todos esses personagens sob o efeito do vírus do amor, alterados, transtornados, meio loucos e desesperados.

No final das contas, “O Passado” é uma quebra muito grande em relação às maneiras de amar com as quais estamos acostumados a ver em livros, filmes, Jane Austen e Disney. (Sem críticas! Eu adoro Austen e cresci com Disney!) É cru, direto ao ponto quanto ao sexo, mas não necessariamente quanto aos sentimentos. As pessoas são desorganizadas, bagunçadas, obssessivas, e é dessas ideias e sobretudo da ideia de que o amor é doente e doentio, que Alan Pauls constrói essa saga por Buenos Aires, na qual dois ex namorados não conseguem deixar de estar presentes nas vidas um do outro.

Título original: El pasado
Ano de publicação: 2003
Idioma original: Espanhol

Título em português: O passado
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
480 páginas