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Resenha: A fantástica vida breve de Oscar Wao | Junot Díaz

But no matter what the truth, remember: Dominicans are Caribbean and therefore have an extraordinary tolerance for extreme phenomena. How else could we have survived what we have survived?
(p. 155)

“A vida breve de Oscar Wao” (ganhador do Prêmio Pulitzer de Ficcção em 2008) me pegou desprevenida. De tudo o que achei que ele poderia ser, foi diferente – e foi mais. As sinopses falam geralmente da experiência do imigrante nos Estados Unidos ou da “nerdice” do personagem principal, Oscar – mas há muito mais nesse livro. Eu diria que é uma saga: a saga de uma família dominicana desde a Era de Trujillo (general que comandou a República Dominicana de 1930 a 1961) até o fim dos anos 1990.

a-fantastica-vida-breve-de-oscar-waoAcompanhamos o jovem Oscar, filho de dominicanos nascido nos EUA. Oscar representa aquela encruzilhada na qual vivem tantos filhos de imigrantes: ele não pertence a lugar nenhum e a grupo nenhum. Não é dominicano porque é gordo, nerd e não é o modelo de macho alfa. Tampouco pode ser americano porque é, primeira e unicamente, latino. A explicação para o azar de Oscar é, obviamente, o sobrenatural: a família carregaria alguma maldição, ou fukú, como é comumente chamada na República Dominicana. O fukú teria origem nos navios negreiros vindos da África, na própria escravidão. É a maldição do Novo Mundo.

Para falar de Oscar, é preciso falar de sua família: irmã, mãe, avós. Para falar das complicadas relações familiares e da comunidade dominicana nos EUA, é necessário retornar à República Dominicana e desenterrar demônios – o que não é fácil. Com uma história de repressão, acostumou-se a não falar, a calar, e a encontrar respostas, cada vez mais, no sobrenatural.

Shit was so tight that people actually believed that Trujillo had supernatural powers! It was whispered that he did not sleep, did not sweat, that he could see, smell, feel events hundreds of miles away, that he was protected by the most evil fukú on the Island. (You wonder why two generations later our parents are still so damn secretive, why you’ll find out your brother ain’t your brother only by accident.
(p.235)

Vários dos problemas nas relações interpessoais neste livro têm origem neste silêncio. As coisas são ditas pelas metades, o passado é a página em branco sobre a qual ninguém quer escrever. É doloroso demais e melhor deixado quieto. O problema da famíliar de León é o problema da América Latina, esse de escarafunchar o passado duro, enfrentar e olhar de frente nossas falhas. No Brasil, por exemplo, estamos apenas nos últimos dois anos abrindo os arquivos da ditadura! Faltam debates sobre nossa polícia militarizada, sobre censura, sobre racismo (abolimos a escravidão, sob muitos protestos, há pouco mais de 100 anos!). Falta falar muito ainda.

Quanto à linguagem, eu diria que Junot Díaz conseguiu dar voz ao imigrante. Seu livro é escrito numa espécie de Spanglish: se o grosso está em inglês, não deixa de estar cheio de palavras e expressões inteiras em espanhol – em com gírias. Acho que quem já viveu por algum tempo em outro país e conviveu, enquanto fora, com alguns conterrâneos, entende bem isso. É uma mistura de idioma e de referências culturais que falam muito desse sem-lugar que está o imigrante. Além dessa mescla de idiomas, Díaz traz ainda várias alusões a livros, jogos, filmes, séries e quadrinhos na narrativa (lembremos, Oscar é um super nerd). Fiquei pensando como se pode contar a mesma história de mil maneiras diferentes dependendo de nossas referências.

brief wondrous life of oscar waoPor fim, eu gostaria de lembrar que, embora o tema da imigração pareça um pouco distante (hoje o Brasil está em condições até de receber estrangeiros – não só os nossos vizinhos, mas também europeus e americanos) e nós nunca tenhamos visto uma emigração tão grande quanto outros países viveram em suas histórias recentes, até pouco tempo atrás nosso sonho, assim como o de toda a América Latina, era emigrar para os Estados Unidos. Em 2005 a principal novela da Globo era justamente “América”.  Junot Díaz trata dessa saída de gente de seu país de Diáspora. Chega a falar da Alemanha nazista quando diz que, infelizmente, o Trujillato não nutria o mesmo apreço pela documentação que os alemães. E embora o autor não fale exatamente isso, eu deixo aqui então o que eu quero falar: por que numa história de catástrofes, ditaduras, silêncios, espancamentos, desaparecidos e mortes a torto e a direito, umas tragédias são mais tragédias que outras?

Nós temos uma história complicada. Nós brasileiros, nós latino-americanos. Nestes tempos de escalada do conflito entre Israel e Palestina, muito se fala de genocídio, violência, raízes históricas… Estamos tentando entender o Oriente Médio, temos incontáveis livros e filmes sobre o holocausto (palavra que vem sempre com uma espécie de subtítulo: a maior tragédia da história da humanidade). No entanto, pouco fazemos para entender nós mesmos e a nossa sociedade. Não estou dizendo que o de lá é menos importante, mas que podemos e devemos tentar nos compreender. Afinal de contas, entendo que não falar dos nossos conflitos e tumultos é passar a ideia de que não temos problemas. E eu não conheço uma pessoa sequer que ache que nós não temos problemas.

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Título original: The brief wondrous life of Oscar Wao
Ano de publicação: 2007
Idioma original: Inglês

Título em português: A fantástica vida breve de Oscar Wao
Ano de publicação: 2009
Editora: Record
336 páginas

Café, pão de queijo e… O nome da rosa

O bem de um livro está em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por as vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro traz signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo.” (p. 448-9)

Há mais ou menos dez anos esse livro habita minha estante, sendo jogado pra lá e pra cá, de vez em quando passando na frente na pilha de leituras para depois ser empurrado para o final. Já tinha começado a ler “O nome da rosa” umas três vezes, sempre parando na mesma parte (uma descrição bastante detalhada), desanimada pelo ritmo do livro.

Como parte do Desafio Skoob, resolvi escolher este título para o mês do mistério, por sugestão que encontrei no próprio fórum. Sábia decisão.

O filme eu já conhecia, embora não me lembrasse de muitos detalhes, mas o fato de saber da chave do mistério (pelo menos em partes) absolutamente não tira o brilho desta obra.

O nome da rosaO livro é narrado por Adso de Melk, um monge beneditino que já em idade avançada relembra os acontecimentos de sua juventude, quando foi, durante um período, aprendiz do franciscano Guilherme de Baskerville. O ano é 1327. Ao visistar um mosteiro italiano na missão de preparar um encontro entre grupos conflitantes dentro da Igreja Católica, Adso e Guilherme acabam se envolvendo numa série de acontecimentos misteriosos.

Na manhã de sua chegada é descoberto o cadáver de um dos monges. O abade confia a Guilherme a missão de descobrir o que poderia ter acontecido: aquilo fora um assassinato ou suicídio? (Ambos, claro, problemáticos para o mosteiro.) A sequência dos acontecimentos é surpreendente embora a tragédia seja anunciada por Adso desde o início. O que torna a trama tão intricada são as diversas discussões, intrigas e principalmente segredos entre os monges.

(Devo dizer que Guilherme de Baskerville é um homem genial e é com prazer que o acompanhamos na resolução do mistério. Por incrível que pareça, embora o livro trate de um assunto tão profundo e tenha como cenário um ambiente a primeira vista tão austero, Guilherme me fez dar umas boas risadas!)

No entanto, mais do que uma história de mistério, Umberto Eco constrói em “O nome da rosa” um cenário incrível de uma época e um domínio, tendo como centro da dicussão a questão do conhecimento. Definitivamente cai por terra a ideia do período medieval como um de trevas: todo o tempo vemos jogos políticos na busca pelo poder. Mais ainda, os debates filosóficos e teológicos são acirrados, revelando um certo trânsito de conhecimento e algum nível de trocas intelectuais que normalmente tendemos a pensar como fora do contexto da Idade Média.

Existem N maneiras de ler este livro, me parece, e eu poderia escrever extensamente sobre cada um dos que considerei como grandes temas a serem pensados a partir desta leitura. No entanto, me limito nesta resenha a enfatizar o quão genial este livro é por sua discussão em torno do conhecimento – deve estar ao alcance de todos? Quem tem responsabilidade sobre ele? Quem é guardião dos livros e das bibliotecas? Deve haver a figura do guardião? Quem valida conhecimentos? Quem faz seleções e interpretações? Deve haver essa seleção, essa “filtragem”? – e da própria Igreja Católica naquele momento – dividida, brigando por poder e legitimação, palco de embates em torno de ressignificações sobre a vida de Jesus e a postura dos representantes do poder divino na Terra.

“E então uma biblioteca não é um lugar instrumento para divulgar a verdade, mas para retardar sua aparição?” (p. 330)

Enfim, este é um livro que não acaba. Pelo menos em mim, ele continua repercutindo, fazendo refletir, pensar sobre as ciências, o saber, mas também, de maneira mais modesta, sobre mim mesma, tanto como leitora como quanto alguém que pode propagar um conhecimento ou informação, como mediadora. Definitivamente um llivro que me deixou inquieta, e por isso mesmo é um dos melhores que já li na vida

Deus criou os monstros também. Também te criou. E quer que se fale de tudo.” (p. 537)

Título original: Il nome della rosa
Ano de publicação: 1980
Idioma original: Italiano

Título em português: O nome da rosa
Ano de publicação: 1986
Editora: Record/Altaya
562 p.
(Dados da edição que li. Este livro foi editado inúmeras vezes no Brasil, inclusive em edições mais completas que a minha, que nem mesmo contava com notas.)

Café, pão de queijo e… O Passado

É difícil escrever sobre esse livro, falar sobre ele; às vezes não sei o que entendi. Fiquei pensando no “sobre”: sobre o que é o livro? Do que trata essa história? No final das contas, “O Passado” é sobre o amor, sim, mas um amor obssessivo, doentio, que passa longe do amor romântico.

O passado, de Alan PaulsO livro começa já com o término do casal milenar Rímini e Sofía. Digo milenar porque é assim que parece que eles se entendem e que o mundo entende eles. Ficaram juntos durante doze anos, mas o choque que o fim da relação causa não só neles mesmos, mas em todos que os rodeiam, dá a entender que é como se aquilo fosse antinatural – o fim de uma era.

Embora a narrativa siga uma linha mais ou menos cronológica, em vários momentos somos transportados ao passado através da memória de Rímini (que é quem acompanhamos), resgatando momentos nos quais ele e Sofía ainda estavam juntos, episódios específicos e aparentemente supérfluos, mas que de alguma maneira se conectam com o presente, com algo normalmente imperceptível que só Rímini nota e o faz viajar em suas lembranças e sensações. Aliás, me chamou a atenção especialmente esse jeito de ir e vir: Alan Pauls utiliza frases super longas, cheias de apostos, de parêntenses, extrapola uma observação para depois voltar… E começa tudo de novo. Tenho que admitir que por vezes isso me cansou (existem páginas e páginas, por exemplo, de uma história totalmente marginal), mas por outro lado somos assim. Quero dizer: não pensamos linearmente (pelo menos eu, não!), muitas vezes começamos em um assunto para, escorregando para cá e para lá, cair em outras histórias, lembramos de um episódio, vamos viajando. Nesses zigue-zagues acabamos conhecendo mais de Rímini, da sua maneira de relacionar as coisas, das suas memórias que não são necessariamente sobre os grandes episódios da sua vida, mas do pequeno, do que a outros olhos pode ser insignificante, mas que são pilares do que ele é.

Rímini tem outros relacionamentos, mas durante todo o livro Sofía é constante presença, seja nas memórias, seja em suas óbvias memórias, acasos impossíveis, encontros aleatórios ou inevitáveis. Suas vidas já foram entrelaçadas demais e parece que nenhum dos dois quer largar daquilo.

Outro dia li este artigo no Ñ, do Clarín, sobre um estilo literário que poderia ser considerado para homens, e lá está Alan Pauls. Apesar de tudo o que se possa dizer contra isso, entendo em certas medidas, pois realmente em vários momentos foi difícil para mim entender algumas das mulheres em “O Passado”, especialmente Sofía. Claro, eu só posso falar da minha própria experiência como mulher, mas algumas coisas me pareceram estranhas e cheguei mesmo a pensar “Mas eu não conheço nenhuma mulher que faria/diria isso!”. Mas também pode ser o caso de estarem todos esses personagens sob o efeito do vírus do amor, alterados, transtornados, meio loucos e desesperados.

No final das contas, “O Passado” é uma quebra muito grande em relação às maneiras de amar com as quais estamos acostumados a ver em livros, filmes, Jane Austen e Disney. (Sem críticas! Eu adoro Austen e cresci com Disney!) É cru, direto ao ponto quanto ao sexo, mas não necessariamente quanto aos sentimentos. As pessoas são desorganizadas, bagunçadas, obssessivas, e é dessas ideias e sobretudo da ideia de que o amor é doente e doentio, que Alan Pauls constrói essa saga por Buenos Aires, na qual dois ex namorados não conseguem deixar de estar presentes nas vidas um do outro.

Título original: El pasado
Ano de publicação: 2003
Idioma original: Espanhol

Título em português: O passado
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
480 páginas