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Panorama de leituras: abril de 2014

Um vídeo com os livros lidos no mês de abril de 2014 e o que estou lendo no momento.

Livros mencionados:

Razão e sensibilidade, de Jane Austen (resenha aqui)
Mudança, de Mo Yan (resenha do Milkshakespeare and Company aqui)
Pavor espaciar, de Gustavo Duarte
Rebecca, de Daphne du Maurier (resenha aqui)
Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage, de Alice Munro
Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver
Longe da árvore, de Andrew Solomon (resenha da Gisele Eberspächer aqui)
Beloved, de Toni Morrison (resenha da Elli aqui)

Resenha: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen (ou: em defesa de Jane Austen)

Há um tempo atrás decidi começar uma espécie de clube de leituras com pessoas conhecidas. A ideia era, acima de tudo, manter contato com uma amiga querida que agora mora na Itália. Fazendo uma leitura conjunta por mês, continuaríamos participando ativamente da vida uma da outra. Fechamos um mirrado grupo de umas quatro participantes, todas mulheres, e a escolha para o primeiro mês ficou com Persuasão, da Jane Austen. Quando comentei sobre o “clubinho” com alguns colegas, uma conhecida em particular me olhou com cara de desdém e disse que essa era a coisa mais clichê do universo: mulheres lendo Jane Austen! Dá para ter coisa mais degradante para o gênero feminino?!

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Sense and sensibilityRazão e Sensibilidade conta de duas irmãs, Elinor e Marianne. Elinor, a mais velha, é centrada, contida, tendo uma consciência até terrível de como deve se comportar em sociedade. Marianne, por outro lado, é movida pelas emoções, mais impulsiva, não se deixa amarrar por conveniências. Em meio a essas diferenças entre as duas irmãs (e a mãe, de quem Marianne parece ter herdado seu gênio) permanece o amor fraternal incondicional e o senso de dever para com a família.

Como é comum quando se trata de Jane Austen, a trama gira em torno de problemas financeiros, heranças e os amores (e obstáculos) das duas irmãs. Os problemas da família Dashwood começam quando o pai delas morre e, legalmente não podendo deixar sua propriedade para as filhas ou esposa, pede ao seu filho do casamento anterior – e seu herdeiro – que ajude suas filhas. É claro que ele promete que sim – e é claro que não é isso que ele faz. Essas quatro mulheres (há também uma irmã mais nova) vão então se movendo para lá e para cá, tentando se ajustar com aquilo que têm. E é isso o interessante nesta história: é perceber a esfera restrita na qual a mulher daquela sociedade podia se mover.

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Depois de Persuasão fiquei sem ler Jane Austen (de quem eu gosto muito) durante algum tempo. Já havia lido Razão e Sensibilidade há uns quase oito anos, em inglês, quando não tinha o hábito, então contava como “meia-leitura”.

Enquanto lia as histórias de Elinor e Marianne fiquei pensando sobre esse lugar restrito da mulher, essa quase jaula. Embora a Jane Austen seja conhecida por escrever sobre esses gentlemen que permanecem nos sonhos da maioria das mulheres ainda hoje (há um verdadeiro culto em torno do Mr. Darcy, e com toda razão!), acho válido que retomemos as outras coisas das quais ela estava falando. Em Razão e Sensibilidade, assim como em Persuasão (dos livros que tenho mais frescos na memória), vemos mulheres esquecidas, jogadas para as margens da sociedade porque já estão chegando aos trinta e não são casadas, não são lindas ou não têm dinheiro suficiente. Tudo o que define as mulheres são essas três características sobre as quais elas mesmas não têm controle.

Os desfechos felizes (tenho minhas dúvidas sobre Razão e Sensibilidade ser exatamente feliz, mas não vou comentar para não dar spoilers) acabam por se sobrepor a tudo o que Jane Austen discute, como se o fato dela ser conhecida por casar seus personagens no final do livro significar o próprio endosso dela de que este é o final perfeito e a resolução de todos os problemas que possa afligir o gênero feminino. Esquece-se das falas que vemos durante todo o livro e que, acredito, pretendem justamente discutir essa posição passiva da mulher naquela sociedade. E é por isso que eu defendo a Jane Austen e não acredito que ler seus livros me torne menos feminista.

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Título original: Sense and Sensibility
Ano de publicação: 1811
Idioma original: Inglês

Título em português: Razão e Sensibilidade
(Este livro já teve várias edições e atualmente, que eu saiba, é publicado pela Penguin/Companhia, L&PM, Martin Claret e Saraiva, mas deve ter mais por aí.)

Feira: Março de 2014

Para as aquisições de livros em março de 2014, resolvi fazer um videozito.

Feira de livros da UFMG
– O beijo de Lamourette, de Robert Darnton
– O espetáculo das raças, Lilia Moritz Schwarcz
– O sabor do arquivo, Arlette Farge
– Cibercultura, Pierre Levy
– Por que ler os clássicos?, de Italo Calvino
– O barão nas árvores, de Italo Calvino
– As cidades invisíveis, de Italo Calvino
– Cada homem é ma raça, de Mia Couto
– E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
– Terra sonâmbula, de Mia Couto
– Habibi, de Craig Thompson

Livraria Travessa
– Pavor espaciarde Gustavo Duarte

Livraria Cultura
– Little women, de Louisa May Alcott
– Sense and sensibility, de Jane Austen

Estante Virtual
– O obsceno pássaro da noite, de José Donoso