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Panorama em leituras: fevereiro de 2014

De volta à vida de estudante, de volta ao encurtamento do tempo. É verdade que eu adoro estar o dia inteiro na universidade, mas a mudança na rotina requer também uns ajustes. Traduzindo: o que acontece é que eu sou péssima para organizar o tempo e estou querendo aqui justificar para mim mesma o porque de continuar lendo tão pouco.

Mas vamos lá.

Valente por Opção, de Vitor Cafaggi

Valente Por OpçãoMe faltava este último livrinho com as aventuras amorosas do cãozinho Valente, e fiquei guardando e poupando esta leitura até o finalzinho, até não aguentar mais. Como falei no post sobre o Cafaggi, Valente foi meu primeiro encontro com o quadrinista – um encontro do acaso, daquelas descobertas literárias que fazemos sozinhos e que dão uma felicidade enorme. Sabe como? É lindo ver Valente crescendo, indo para a faculdade e passando pelas mesmas coisas que eu passei (e muita gente deve ter passado também). Como disse antes, a beleza dessas tirinhas é justamente essa facilidade com que nos reconhecemos, pegando aquelas memórias mais queridas e nostálgicas.

Laços, de Vítor e Lu Cafaggi

LaçosMe faltava ainda o quadrinho pelo qual o Cafaggi fez sua fama nacional. Esse aqui foi outro que eu guardei e fiz o maior ritual para ler: café, bolo, finzinho de tarde de domingo, com o tempo ficando mais fresquinho… E que delícia mesmo! O propósito de fazer da aventura uma daquelas dignas de filme dos anos 80 de sessão da tarde foi realmente alcançado. Fiquei pensando em “Goonies”, “Conta Comigo”… Essas histórias de amizade, tão inocentes, que realmente estão na base das nossas infâncias. Lindo mesmo!

Obs.: gostaria de aproveitar o momento para dizer que o Lipão (conhecido no mundo dos quadrinhos mais como Garrocho) e o Damasceno, responsáveis pelo lindo e excelente “Achados e Perdidos” e pela página www.quadrinhosrasos.com (e que lançam seus trabalhos pelo selo Pandemônio, onde o Cafaggi lançou seu primeiro Valente), já anunciaram no último FIQ que também farão uma história para a MSP Graphic – do Bidu!!!!

Bonsai, de Alejandro Zambra

BonsaiFazia séculos que por algum motivo inexplicável eu queria ler este livro. Ainda não sei direito como ou o que falar sobre, mas é realmente recomendável. Realmente um romance podado como um bonsai (até em tamanho, pois é super curtinho!).

A Vida Privada das Árvores, de Alejandro Zambra

A Vida Privada das ÁrovresFui emendando uma leitura na outra, na fúria que estava por este autor. Gostei mais deste último, talvez mesmo pelo estilo, por umas frases e palavras que são bastante inusitadas. No geral, gostei bastante deste escritor. A literatura latino-americana tem realmente algo muito particular, um jeito com as palavras que pelo menos me tocam muito mais.

Coração, de Edmondo de Amicis
Cuore

Coração (Edmondo de Amicis)Uma leitura um pouco mais arrastada para mim, porque o tema de exaltação da nação italiana acabou me cansando, como disse nessa resenha aqui.

O Sol é Para Todos, de Harper Lee
To Kill a Mockingbird

ToKillaMockingbirdFalei mais prolongadamente na resenha que publiquei aqui: um livro excelente, que realmente cutuca a ferida e escancara sérios problemas sociais. Fico imaginando mesmo o bafafá que causou quando foi lançado e das inúmeras possibilidades de ser trabalhado em escola. Num momento no qual vemos manifestações de racismo no futebol (e por indígenas!), quando um negro fica preso injustamente por dias, quando as pessoas resolvem fazer justiça com as próprias mãos e atacam invariavelmente negros, é realmente muito relevante esse tipo de leitura e discussão. Particularmente gosto bastante também de narrativas que trazem o ponto de vista de crianças: como crianças repetem o comportamento adulto, elas acabam deixando bem claros os problemas e os preconceitos.
Obs.: este livro foi parte também o Desafio Literário do Skoob. Tema do mês de fevereiro: clássicos da literatura mundial.

E foi isso. Um mês razoável em leituras de diversão, vamos ver o que o mês de março trará…

Café, pão de queijo e… Coração (Edmondo de Amicis)

(Esse título está meio canibal, meio Rainha Má da Branca de Neve, mas deu pra entender, né?)

Nessas passeadas por livrarias, físicas e virtuais, vira e mexe nos deparamos com livros que nos aparecem “sem história”: sem dicas, recomendações ou qualquer “ouvir falar”. Foi assim com “Coração”, que me ganhou por quatro motivos: a) por parecer ser uma literatura infanto-juvenil bem bonitinha; b) por ter sido um dos livros mais vendidos no Brasil entre as décadas de 1920 e 40; c) por sua aparente relevância para o meio intelectual; e d) por nada mais, nada menos que a própria capa (que não muda de cor – infelizmente – mas está disponível em três tons pastéis).

Coração (Edmondo de Amicis)

Coração” (Cuore) trata do ano letivo de Enrico, um italianinho de 11 anos que conta sobre seus professores, colegas de classe que se tornam amigos ao longo do livro, das diferentes famílias e origens sociais, da Itália unificada. Em forma de diário, o menino dia após dia narra nobres histórias com grandes lições de moral – e é exatamente aí que mora o problema.

Acredito que “Coração” deva ser lido como pertencendo ao seu contexto histórico, e é preciso ter isso sempre em mente. Há quem goste e não veja problema nesses relatos que evocam o amor à pátria, o culto ao soldado anônimo, aquela imagem idílica do professor e da escola. Quem gosta deste tipo de história certamente irá se deliciar com esta leitura. Eu, no entanto, tendo a enxergar o livro de Edmondo de Amicis como parte de um movimento de unificação italiana que não terminou nas guerras de 1860/61, mas que seguiu por muito tempo depois, na tentativa de “criar” uma identidade nacional que superasse as identidades regionais.

De Amicis se baseia, então, em três pontos: a escola, a família e o exército. São estas as três instituições que fundam a nação. Na escola, uma variedade de alunos se encontram no mesmo espaço, momentaneamente esquecidos das diferenças sociais que os separam: filhos de advogados, de lenhadores, de ex-presidiários, de comerciantes etc., convivem em paz e harmonia e recebem as mesmas lições, são tratados igualmente. Com a família são aprendidas as grandes lições de moral, de respeito. No entanto, a família está sempre abaixo da nação, a considerada “grande família”, onde todos são irmãos. Assim, o exército e o corpo de militares assume um papel central para a definição da Itália.

São, aliás, vários os momentos em que são narradas histórias na escola sobre campanhas militares, uma grande batalha ou um episódio no qual um simples soldado ou mesmo um camponês desempenham papéis heróicos nos esforços de guerra.

O autor até chega a tocar em algumas diferenças (algo raro quando se quer construir a unidade), não deixando passar desapercebido o fato de existirem várias classes sociais no mesmo espaço, mas ainda assim o faz somente para tentar despertar o sentimento de empatia. Embora incentive a compaixão, nunca se pensa o por que da situação.

Me chamaram a atenção dois pontos: em nenhum momento a religião é mencionada. Pensando num país com forte presença do catolicismo, é bastante curioso e me faz pensar na situação política italiana como realmente se contrapondo ao poder da Igreja. Outra questão interessante foi a de um conto (a cada mês o professor da turma dá um conto mensal, que nos é relatado) sobre um menino que vai à Buenos Aires procurar sua mãe que emigrou para a Argentina (esta história resultou naquele anime bem bonitinho, Marco), escancarando um problema social da Itália. Mais uma vez: não se deixa de falar na pobreza durante o livro, mas sempre com aquelas grandes e comoventes histórias, nas quais uma pessoa super pobre age na maior nobreza do universo.

Enfim, como se pode notar, não foi meu tipo de leitura, embora me tenha interessado como um registro histórico, especialmente de um tema que me toca bastante, como é o caso dos nacionalismos no XIX.

P.S.: é triste ver que, desde a época em que o livro foi escrito, o professor foi sempre retratado como aquele que faz o seu trabalho por amor – e nada mais. Desde sempre tão mal remunerado!

Título original: Cuore
Ano de publicação: 1886
Idioma original: Italiano

Título em português: Coração
Ano de publicação: 2011
Editora: Cosac Naify
352 páginas

Fique agora com a abertura de Marco:

Feira: Janeiro de 2014

Se no ano de 2013 eu fui uma pessoa ultra comportada no quesito compras de livros, atendo minhas leituras ao que eu já tinha na estante ou no Kindle, 2014 começa com uma amostra preocupante. Se o primeiro mês do ano ditar o tom do ano, posso dizer que daqui a onze meses estarei com um rombo bancário preocupante.

 

Cosac Naify: promoção de virada do ano

– História do pranto, Alan Pauls
– História do cabelo, Alan Pauls
– O sonho dos heróis, Adolfo Bioy Casares
– Coração, Edmondo de Amicis

 

Livraria Leitura: vi e queria imediatamente

Valente para todas, Vitor Cafaggi
Valente por opção, Vitor Cafaggi

Fnac: surto de quadrinhos (que coincidentemente estavam em alguma promoção)

Maus, Art Spiegelman
– Laços, Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
Azul é a cor mais quente, Julie Maroh

Cosac Naify: mais promoção…

Os miseráveis, Victor Hugo
– A máquina de fazer espanhóis, Válter Hugo Mãe
– Bonsai, Alejandro Zambra
A vida privada das árvores, Alejandro Zambra

Ainda não me decidi sobre o que acho da Cosac Naify: amo por suas lindas edições e um mês de promoções, ou odeio – também pelas promoções? O problema dos descontos é que eles aparecem de uma hora pra outra e sabemos que são efêmeros, temos que nos apegar àqueles preços antes que eles desapareçam. E aí, é claro, vemos no final do mês um saldo problemático, fruto desses desesperos. E nem estou contando aqui outras compras que ainda não acharam seu caminho até minha estante….

Alguém mais enfiou o pé na jaca este mês?