Arquivo mensal: maio 2016

O que a gente não vê na internet: “O filtro invisível” | Eli Pariser

Ando pensando muito em internet. Acredito que muita gente já sabe ou chegou às mesmas conclusões a respeito do assunto há muito tempo atrás e as coisas que direi podem parecer óbvias (são mesmo), mas pra mim, apesar de razoavelmente evidentes, são pontos sobre os quais eu nunca tinha refletido seriamente.

Depois de ler 24/7 Capitalismo tardio e os fins do sono (ainda devo falar sobre esse livro), do Jonathan Crary, uma onda de pessimismo adentrou meu ser e firmou-se aqui. Esse livrinho fala de muita coisa, mas o que me chamou a atenção foi o alerta que ele faz para a impossibilidade de se escapar da logica do capitalismo utilizando ferramentas produzidas dentro do sistema. É um ponto de vista aterrador para quem, como eu, sempre pensou na internet como uma possibilidade de mudança no sentido de ser uma rede que viabilize a resistência e a solidariedade.

Nesse clima, fui ler O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você, do ativista de internet Eli Pariser. Esse cara obviamente não concorda com o ponto de vista do Crary: ele é co-fundador do Avaaz, por exemplo. O tom aqui, portanto, é bem menos fatalista em comparação com 24/7, mas não deixa de levantar questões muito importantes no que diz respeito ao funcionamento da internet e dos serviços que utilizamos diariamente na rede – e que, problematicamente, não sabemos como funciona.

O filtro invisível, de Eli Pariser

Considero o livro ainda muito superficial apesar das suas 258 páginas: não há desenvolvimento e preocupação em construir um embasamento mais sólido para as ideias que são expostas. Contudo, embora Pariser não se aprofunde nas consequências, o livro é interessante pelos fatos que ele apresenta – e que eu não conhecia.

Me chamaram a atenção em especial três pontos: i) a existência de empresas totalmente desconhecidas, ao contrário de Google e Facebook, e que vivem exclusivamente de recolher dados sobre usuários e vendê-los; ii) o fato de que nem mesmo as pessoas que trabalham construindo os filtros na internet entendem exatamente como funcionam; e iii) o jogo de relevância entre o que interessa a níveis pessoal e social.

Mas começando do começo, o argumento do livro de Pariser é: a internet não te apresenta nada neutro, existem filtros para cada busca e mesmo para a simples navegação. Esses filtros apresentam o que acreditam ser de seu interesse, baseados no seu histórico de navegação. Isto quer dizer, então, que seus dados estão sendo recolhidos e usados para que você se mantenha o maior tempo possível conectado, especificamente consumindo. Bem, já sabemos disso: cada vez que procuramos um produto qualquer na internet e depois ficamos vendo aquela mesma coisa anunciada no Facebook, em todas as janelas de propaganda em qualquer site e até mesmo recebendo emails perguntando se queremos concluir a compra. Mas existem dois problemas com isso.

Em primeiro lugar, isto quer dizer que existem dados nossos que estão sendo recolhidos e armazenados em algum lugar por alguém. Google e Facebook fazem isso, sim, mas existem outras empresas que se dedicam exclusivamente a este negócio. Sim, negócio. Nossas informações são comercializadas, nós mesmos somos transformados em produtos sem saber e sem ganhar nada com isso.

O que nos leva ao segundo ponto: aparentemente ninguém sabe exatamente como esses filtros funcionam. Nós, usuários, sabemos nada ou muito pouco sobre como nossos dados são recolhidos (e acredite, esse recolhimento vai muito além dos formulários que preenchemos e entregamos livremente): palavras que usamos, em que horários estamos conectados, onde, de quais aparelhos etc. Pior, vai ficando cada vez mais difícil distinguir o que é a propaganda filtrada para você do que não é. Saindo da propaganda e ampliando para a internet como um todo, já não há como não receber algo filtrado especialmente para você (mesmo estando deslogado do Google, por exemplo, existem outras informações recolhidas que atuam na construção do filtro). Os algoritmos em cima de algoritmos ficaram de fato tão complexos que, segundo entrevistado de Pariser, nem quem trabalha construindo os filtros entende muito bem como eles funcionam de fato.

Por fim, a relevância: no vídeo acima, Pariser começa justamente falando das diferenças que aparecem de pessoa para pessoa no feed de notícias do Facebook e nos resultados de buscas no Google. Me parece um assunto que dá pano pra manga, viu, fiquei pensando horrores aqui sobre isso e acho difícil escrever sobre o assunto. Primeiro, os filtros mostram o que acham que você quer ver em detrimento do que você deveria ver. Mas aqui coloca-se um problema e-nor-me: Pariser é um tanto quanto romântico quanto ao jornalismo, esquecendo que essa mídia toda poderosa também tem seus sérios defeitos, incluindo um histórico de manipulação que é horroroso. A questão que acho importante aqui é: estamos perdendo nosso senso de comunidade devido às referências tão díspares que recebemos a partir de um mundo na internet filtrado especificamente para o indivíduo, e não para um grupo social? Olha, dá pano pra manga, dá muito pano pra manga.

Dava pra eu emendar aqui com outras coisas, mas vou puxando o barco e encerrando. Deixo duas dicas de vídeos ainda:

  • Sobre as informações que damos voluntariamente em troca de serviços aparentemente gratuitos como emails e contas em redes sociais, temos o documentário Terms and Conditions May Apply, de 2013, que está disponível no Netflix. O problema dele é dizer mais sobre a possibilidade que essas empresas tem de entregar nossas informações ao governo (um problemão, óbvio) e menos sobre vender para outras empresas visando a propaganda, algo que já está acontecendo pesadamente.
  • Sobre a seleção de conteúdo, o vídeo do Sempre um Papo com Mário Sérgio Cortella e Gilberto Dimenstein discutindo as ideias de seu livro em co-autoria, A Era da Curadoria. Me parece um contraponto interessante, pois desloca para a necessidade de termos filtros, mas aponta para quais as figuras sociais deveriam ser responsáveis e com que propósito.

Encerro então, sabendo que um sem mundo de discussões foram deixadas de lado por enquanto. Como dá para perceber, então, O filtro invisível passa por um sem número de questões, mas peca seriamente em desenvolver pontos que são muito problemáticos e de forma alguma fechados. Na verdade, muitos temas são cabeludos mesmo (esse da relevância, vejam só que cilada maravilhosa seria entrar nisso) e mereceriam pelo menos a exposição da extensão do problema que colocam.