Resenha: Call the midwife | Jennifer Worth

Nestes passeios pelo catálogo do Netflix, quando perdemos horas e horas de nossas vidas até decidir o que assistir, me deparei com a série da BBC Call the midwife (algo como “Chame a parteira” em português), e lá fui eu.

CalltheMidwifeBBCA série é inspirada nas memórias da enfermeira inglesa Jennifer Worth (1935-2011), que registrou sua vida como enfermeira em uma área pobre de Londres na década de 1950. O livro Call the midwife foi publicado em 2002 e conta sobre sua experiência no atendimento médico gratuito na região de Poplar, uma novidade na Grã-Bretanha. Este atendimento era conduzido pelas freiras da Nonnatus House (nome fictício), que contavam com outras enfermeiras que não pertenciam à ordem, como a própria autora e outros personagens dos quais ficamos sabendo ao longo do livro.

Cada capítulo conta um episódio diferente: há relatos de casos de pacientes atendidos por Worth, assim como de sua própria vida e da vida das irmãs de caridade. Entretanto, eu diria que existem três temas que me chamaram a atenção: a mudança e importância que um serviço nacional de saúde significou; a posição da mulher em uma sociedade conservadora e antes ainda da pílula (que a própria autora pontua como uma enorme revolução); e como ações que parecem distantes, que vêm de decisões tomadas no âmbito de uma grande estrutura, como o governo, afeta diretamente as vidas das pessoas.

Sobre a oferta gratuita de uma assistência em saúde, Worth chega até a fornecer algumas estatísticas, como por exemplo sobre a redução da mortalidade infantil e de mães durante o parto (o trabalho dela foi principalmente como parteira e na assistência pré-natal, embora existam relatos de outros casos). O tipo de relação estabelecido com os pacientes me chamou a atenção em especial: acho interessante o fato de ter existindo um vínculo com a comunidade. O próprio convento estava localizado dentro de Poplar e as enfermeiras (freiras ou não) insistiam em atender seus pacientes à domicílio, percorrendo enormes rotas diariamente em bicicletas para visitar qualquer pessoa que precisasse de acompanhamento. Trata-se de uma relação completamente diferente da que temos hoje: o profissional da saúde de fato via seu paciente em seu ambiente, podendo ter uma ideia muito mais ampla do sujeito, o que, como relata Worth, em muitos casos alterava o tratamento.

Quanto ao tratamento da mulher, são tantas histórias diferentes que torna-se até complicado eleger algumas como exemplo ou fazer uma síntese. Como a própria autora lembra, a invenção e popularização da pílula foi um acontecimento enorme. Antes disso, à época na qual se passam os relatos do livro, isso ainda não havia acontecido. Famílias de cinco filhos nem mesmo eram consideradas grandes! Mulheres, então, simplesmente engravidavam, e as situações eram diversas: solteiras eram obrigadas a se casar, embora muitas vezes entrassem em uniões horríveis; mães solteiras, separadas (uma raridade) ou viúvas, eram condenadas a uma vida de dificuldades, mal conseguindo trabalhar – às vezes por não terem com quem deixar seus filhos, outras por simplesmente não conseguirem emprego. Jennifer Worth também relata os casos nos quais se recorriam a curandeiras (pessoas sem qualquer tipo de treinamento ou formação na área) para a realização de abortos. Estes resultavam, na esmagadora maioria dos casos, na morte da mulher. São muitas as histórias de abuso de mulheres, toda forma de abuso. Com mais regras de conduta moral se impondo sobre o sexo feminino, era preciso se submeter a situações de violência explícita e velada para sobreviver ou garantir a sobrevivência de seus filhos.

Por fim, quanto à ação do estado e suas repercussões em universo micro: podemos ver as condições de vida paupérrimas em uma área que havia sido fortemente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e os efeitos psicológicos de ambas as guerras. Entretanto, creio que um relato sobre as workhouses (casas de trabalho forçado) foi o mais contundente e exemplar acerca da interferência do estado na vida privada. Embora abrigassem qualquer pessoa que as procurassem, as workhouses separavam famílias, impediam que as pessoas saíssem, eram insalubres e obrigavam seus ocupantes a trabalhar até a exaustão. Embora à época das memórias de Worth elas já tivessem sido extintas, é notório como deixaram suas marcas profundas na sociedade. Além disso, podemos começar a pensar até que ponto a política de um serviço nacional de saúde, tal como era conduzido à época, também não interferia em vontades privadas dos cidadãos – embora seja inegável que foi um avanço no sentido de democratizar o acesso a serviços de saúde.

ThemidwifeGostei muito do livro e recomendo a leitura. Embora não seja um primor literário, Call the midwife dá muito o que pensar e certamente é um relato interessante e incomum sobre uma época em determinado contexto – um contexto pobre que geralmente tem poucos registros sobre si.

***

Call the midwife também foi publicado sob o título The Midwife. O sucesso do primeiro livro fez com que fossem lançados outros na série: Shadows of the workhouse (2005) e Farewell to the East End (2009).

Título original: Call the midwife / The midwife
Ano de publicação: 2002
Idioma original: Inglês

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11 ideias sobre “Resenha: Call the midwife | Jennifer Worth

    1. Olivia Autor do post

      Eu amei a série, Jeniffer! É verdade que lá pela terceira temporada começa a decair, mas ainda assim, vale a pena.
      Besos!

      Resposta
  1. Eduarda Sampaio

    Assisti os três primeiros episódios no Netflix, mas não amei, Olivia. Achei a personagem principal meio inexpressiva, não sei… Gostei mesmo foi da enfermeira desajeitada. Achei ela ótima!
    Beijo! ^_^

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Verdade, Duda, também nao simpatizo com a personagem principal, mas ADORO as freiras e as outras enfermeiras. E também gosto muito dos problemas dos pacientes, do atendimento à comunidade, dos problemas daquela vida naquele período… É verdade que a série é mais “bonitinha” que o livro também, mas eu gosto mesmo assim. Que pena que nao caiu tanto no seu gosto, tinha tanta certeza que era sua área…!
      Beijos!

      Resposta
      1. Eduarda Sampaio

        Ainda não desisti da série não, Olivia. Vou terminar a primeira temporada. Meu problema mesmo é com a protagonista. Ela não me convence. E quando apareceu o paquera/namorado dela aí fiquei seriamente incomodada…

  2. Michelle

    Nunca tinha ouvido falar nessa série, mas parece interessante. Enquanto lia sua resenha, lembrei de um livro que li há alguns anos (Sangue e Entranhas), que fala da evolução da medicina. Em determinado momento da história da humanidade (anterior a esse da série), as parteiras tinham uma alta taxa de sucesso, em comparação com os médicos, e ninguém entendia o motivo. Os médicos ficavam meio fulos da vida: como pessoas sem formação médica conseguiam realizar partos melhores? Daí veio a descoberta, simples, mas brutal: elas apenas lavavam as mãos. Os médicos vinham direto do necrotério e faziam os partos, o que acabava matando a mãe e o bebê de infecção. Incrível, não?
    Beijo!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Nossa, que interessante, Michelle! Não sabia disso. Parece tão óbvio, né, como o pensamento muda…
      A Woth dá muita ênfase nos benefícios de um atendimento realizado por profissionais formalmente treinados, ela rechaça muito do conhecimento popular. Ao mesmo tempo, também se opõe em vários momentos ao tratamento desconectado da realidade que hospitais e medicos ofereciam. Deve ter feito algum bem àquela comunidade, porque tem coisas que observamos no cotidiano que são realmente muito válidas e pouco notadas por quem vive de teoria…
      Abraços!

      Resposta
  3. Maira

    Olívia, tô de olho nessa série há uns dias…mas agora vc terminou de me convencer de que vale a pena. Se for tão interessante quanto o livro parece ser, vai ser bom. Parece instigar muitas reflexões.
    Bjo grande.

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      E aí, Maíra, começou a assistir? A Duda do Maquiada na Livraria está meio “mais ou menos” com a série por causa da personagem principal. Eu confesso que nao vou com a cara dela tb, mas adoro a série!!!
      Beijos!

      Resposta
  4. Natasha Geada

    Oi! Eu fiquei viciada na série hahaha! To querendo comprar o livro mas só achi em inglês… é difícil a leitura?
    Gostei muito da sua resenha!
    Bjs

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Oi, Natasha!
      Não achei a leitura difícil, nao, embora tenha partes com aquele tal dialeto cockney, mas é tudo explicado pela autora. Recomendo a leitura!
      Abraços!

      Resposta

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