Arquivo mensal: julho 2015

Resenha: Só para fumantes | Julio Ramón Ribeyro

Nunca tinha ouvido falar do peruano Julio Ramón Ribeyro (1929-1994). Até onde eu sei, Só para fumantes é a primeira aparição do autor no Brasil. Esta coletânea de contos nem mesmo existe em língua espanhola: trata-se de uma seleção de contos publicados em diversos livros diferentes, publicados entre 1955 e 1992. Ou seja, até hoje o autor nem mereceu uma obra sua traduzida na íntegra.

JulioRamonRibeyro

Baseada nos contos deste livro, posso dizer que não entendo como não temos mais dele por aqui. Sim, gostei muito.

Os contos de Ramón Ribeyro são atordoantes. Tratam do ordinário, do cotidiano; seus personagens são pessoas sem brilho, em muitos casos à margem da sociedade. Gente invisível em situações medíocres: uns desempregados, um poeta fracassado, gente que vive de lixo… Todos com sonhos – ou mais bem dito, ilusões tanto de um futuro, quanto do passado. Isto é algo especialmente interessante nos personagens de Ramón Ribeyro, pois tratam-se de pessoas que não apenas criam expectativas para o futuro, mas que vivem muito do passado; passado este criado, recriado, distorcido e adequado aos desejos, ilusões, medos e fantasmas do presente.

SóParaFumantesTemática constante também é a da cidade. O autor concentra-se sobretudo em centros urbanos (na maioria dos casos, Lima), evidenciando aspectos da vida urbana, denotando em muitos momentos os problemas da modernização no Peru (e poderíamos pensar, na América Latina como um todo): o desemprego, a criação das favelas, os lixões, etc. Também evidencia a fluidez da cidade, a mudança constante, o ritmo mais corrido.

Os contos buscam as mesquinharias humanas, a desilusão, o deboche e a humilhação – provocam sentimentos de nojo e pena. Entretanto, terminam sempre em tom positivo, com uma esperança. Invariavelmente esta esperança é baseada em algo pequeno, insignificante mesmo, o que nos faz pensar sobre os nossos desejos e nossos mecanismos para buscar a felicidade: nossos sonhos e expectativas mudam de acordo com nossas perspectivas.

Esta coletânea de contos de Julio Ramón Ribeyro eu um tapa na cara. Eu até queria dizer mais do que isso, mas sinceramente não consigo.

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Os contos aqui reunidos foram publicados originalmente em vários livros diferentes. Este item trata-se de uma edição publicada, até o momento, somente no Brasil.

Título: Só para fumantes
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
304 páginas

Resenha: Call the midwife | Jennifer Worth

Nestes passeios pelo catálogo do Netflix, quando perdemos horas e horas de nossas vidas até decidir o que assistir, me deparei com a série da BBC Call the midwife (algo como “Chame a parteira” em português), e lá fui eu.

CalltheMidwifeBBCA série é inspirada nas memórias da enfermeira inglesa Jennifer Worth (1935-2011), que registrou sua vida como enfermeira em uma área pobre de Londres na década de 1950. O livro Call the midwife foi publicado em 2002 e conta sobre sua experiência no atendimento médico gratuito na região de Poplar, uma novidade na Grã-Bretanha. Este atendimento era conduzido pelas freiras da Nonnatus House (nome fictício), que contavam com outras enfermeiras que não pertenciam à ordem, como a própria autora e outros personagens dos quais ficamos sabendo ao longo do livro.

Cada capítulo conta um episódio diferente: há relatos de casos de pacientes atendidos por Worth, assim como de sua própria vida e da vida das irmãs de caridade. Entretanto, eu diria que existem três temas que me chamaram a atenção: a mudança e importância que um serviço nacional de saúde significou; a posição da mulher em uma sociedade conservadora e antes ainda da pílula (que a própria autora pontua como uma enorme revolução); e como ações que parecem distantes, que vêm de decisões tomadas no âmbito de uma grande estrutura, como o governo, afeta diretamente as vidas das pessoas.

Sobre a oferta gratuita de uma assistência em saúde, Worth chega até a fornecer algumas estatísticas, como por exemplo sobre a redução da mortalidade infantil e de mães durante o parto (o trabalho dela foi principalmente como parteira e na assistência pré-natal, embora existam relatos de outros casos). O tipo de relação estabelecido com os pacientes me chamou a atenção em especial: acho interessante o fato de ter existindo um vínculo com a comunidade. O próprio convento estava localizado dentro de Poplar e as enfermeiras (freiras ou não) insistiam em atender seus pacientes à domicílio, percorrendo enormes rotas diariamente em bicicletas para visitar qualquer pessoa que precisasse de acompanhamento. Trata-se de uma relação completamente diferente da que temos hoje: o profissional da saúde de fato via seu paciente em seu ambiente, podendo ter uma ideia muito mais ampla do sujeito, o que, como relata Worth, em muitos casos alterava o tratamento.

Quanto ao tratamento da mulher, são tantas histórias diferentes que torna-se até complicado eleger algumas como exemplo ou fazer uma síntese. Como a própria autora lembra, a invenção e popularização da pílula foi um acontecimento enorme. Antes disso, à época na qual se passam os relatos do livro, isso ainda não havia acontecido. Famílias de cinco filhos nem mesmo eram consideradas grandes! Mulheres, então, simplesmente engravidavam, e as situações eram diversas: solteiras eram obrigadas a se casar, embora muitas vezes entrassem em uniões horríveis; mães solteiras, separadas (uma raridade) ou viúvas, eram condenadas a uma vida de dificuldades, mal conseguindo trabalhar – às vezes por não terem com quem deixar seus filhos, outras por simplesmente não conseguirem emprego. Jennifer Worth também relata os casos nos quais se recorriam a curandeiras (pessoas sem qualquer tipo de treinamento ou formação na área) para a realização de abortos. Estes resultavam, na esmagadora maioria dos casos, na morte da mulher. São muitas as histórias de abuso de mulheres, toda forma de abuso. Com mais regras de conduta moral se impondo sobre o sexo feminino, era preciso se submeter a situações de violência explícita e velada para sobreviver ou garantir a sobrevivência de seus filhos.

Por fim, quanto à ação do estado e suas repercussões em universo micro: podemos ver as condições de vida paupérrimas em uma área que havia sido fortemente bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial e os efeitos psicológicos de ambas as guerras. Entretanto, creio que um relato sobre as workhouses (casas de trabalho forçado) foi o mais contundente e exemplar acerca da interferência do estado na vida privada. Embora abrigassem qualquer pessoa que as procurassem, as workhouses separavam famílias, impediam que as pessoas saíssem, eram insalubres e obrigavam seus ocupantes a trabalhar até a exaustão. Embora à época das memórias de Worth elas já tivessem sido extintas, é notório como deixaram suas marcas profundas na sociedade. Além disso, podemos começar a pensar até que ponto a política de um serviço nacional de saúde, tal como era conduzido à época, também não interferia em vontades privadas dos cidadãos – embora seja inegável que foi um avanço no sentido de democratizar o acesso a serviços de saúde.

ThemidwifeGostei muito do livro e recomendo a leitura. Embora não seja um primor literário, Call the midwife dá muito o que pensar e certamente é um relato interessante e incomum sobre uma época em determinado contexto – um contexto pobre que geralmente tem poucos registros sobre si.

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Call the midwife também foi publicado sob o título The Midwife. O sucesso do primeiro livro fez com que fossem lançados outros na série: Shadows of the workhouse (2005) e Farewell to the East End (2009).

Título original: Call the midwife / The midwife
Ano de publicação: 2002
Idioma original: Inglês