Arquivo mensal: março 2015

Resenha: Um teto todo seu | Virginia Woolf

Não sei se isto aqui pode ser chamado de resenha (existem N discussões nos blogs sobre literatura a respeito do que seria uma resenha), mas por força do hábito, mantive o título da postagem. De fato, acho difícil resenhar brevemente e de maneira leve um livro de não-ficção que se propõe a discutir um tema tão complexo e com tamanha profundidade. Mas vou tentar.

A room of one's ownEm 1928 Virginia Woolf foi chamada à Newnham College e Girton College, faculdades só para mulheres, para uma fala que tivesse por tema mulheres e ficção. Em 1929 uma versão extendida dessas palestras foi publicada sob o título Um teto todo seu.

Espanta a atualidade das questões levantadas por Woolf. Ela fala sobre mulheres autoras, mulheres personagens e mulheres na história para traçar um panorama de como a visão social do sexo importa, influencia e mesmo determina as possibilidades de atuação de cada um. O título do livro, Um teto todo seu, se refere às próprias condições materiais das mulheres ao longo do tempo e como isso influencia a produção literária. Pré-requisitos básicos como ter um espaço para si, um cômodo para dedicar-se à escrita, por exemplo: a falta do espaço individual e a necessidade da mulher de estar sempre entretendo ou cuidando da casa, o que sempre limitou consideravelmente mesmo a própria reflexão sobre si mesma.

Recorrendo a uma personagem ficcional, Virginia Woolf percorre a literatura ao longo do tempo em busca de mulheres autoras, de pontos de vista vindos do sexo feminino, e vai até historiadores para tentar buscar uma narrativa sobre a mulher que não viesse de homens – em vão. Woolf denuncia o silêncio ao qual a mulher foi confinada durante tanto tempo – por ser tida como incapaz, inferior ou porque a natureza não teria pretendido nunca que a mulher se ocupasse de certos temas, confinando-a a outros espaços de atuação.

Um teto todo seu, de Virginia WoolfExistem, é claro, pontos nos quais discordo de Woolf. Sempre há. Ela critica Charlotte Brontë, por exemplo, porque ela deixaria transparecer muito suas preocupações e ressentimentos pessoais em Jane Eyre (a condição de mulher deixaria pouco espaço para uma escrita que não demonstrasse tais sentimentos). Particularmente tendo a discordar que este seja um ponto negativo em si. Entretanto, não deixa de ser um  ponto interessante a ser levantado, uma vez que pode ser visto como limitador da literatura produzida por mulheres, que invariavelmente cairia nesta questão em detrimento de outras. Entendo, desta forma, que aprisiona a mulher porque, tendo que se preocupar primeiramente com seu sexo, acaba não discutindo outras temáticas, sejam elas quais forem.

De maneira geral, um livro muito recomendado. Foi minha primeira leitura da Virginia Woolf e definitivamente me atiçou a curiosidade quanto a outros de seus livros.

Esta leitura foi indicada pelo Bastardas, projeto de leituras feministas que abre um fórum de discussão do livro escolhido a cada mês. O próximo livro a ser discutido é As meninas, da Lygia Fagundes Telles (infelizmente não lerei, mas fica a sugestão).

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Título original: A room of one’s own
Ano de publicação: 1929
Idioma original: Inglês

Título em português: Um teto todo seu
Ano de publicação: 2014
Editora: Tordesilhas
240 páginas

José Mindlin

Para nós que nos desesperamos às vezes quando olhamos para a quantidade de livros não lidos que habitam nossas estantes, há conforto (acho) em lembrar de grandes colecionadores como José Mindlin, quem foi, entre outras coisas, um bibliófilo. Apaixonado por livros e pela leitura, ao longo de sua vida foi alimentando, junto de sua esposa, Guita, uma coleção que contava também com muitos livros considerados raros.

De novo fiquei pensando sobre nossas grandes bibliotecas particulares (lembram deste vídeo?). Sempre faço isso, porque para mim este não é um assunto fechado. A entrevista que Mindlin deu ao programa Roda Viva no final de 2006 (abaixo) me fez repensar a relevância da materialidade do livro. Durante a entrevista, percebe-se que Mindlin não era apenas um colecionador ou um mero bibliófilo. Antes de tudo, ele era um leitor cuidadoso, profundo e que não se furtava de reler (várias vezes) seus livros preferidos. E em alguns momentos nota-se que uma edição determinada, uma lombada diferente ou uma dedicatória têm alguma força sobre o leitor, a ponto de provocar mudanças na maneira como se lê. Esses elementos materiais podem ser catalisadores, podem trazer à tona uma memória, um sentimento – e alterar a leitura. Enquanto assistia José Mindlin falar tive muitas vezes vontade de passar as mãos pelas minhas estantes, folhear livros e recordar…

Em 2005 parte desta coleção, a brasiliana, foi doada à USP, que construiu um prédio especialmente para abrigá-la. Parte do acervo foi digitalizado e está acessível online. O catálogo também está disponível para consulta no site da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

Vídeo: Leituras do mês | Fevereiro de 2015

LIVROS MENCIONADOS:

O talentoso Ripley, de Patricia Highsmith

O barão nas árvores, de Italo Calvino

Um, dois e já, de Inés Bortagaray

Cada homem é uma raça, de Mia Couto

A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan

Um teto todo seu, Virginia Woolf