Resenha: Salt, sugar, fat | Michael Moss

Eu nunca fui de pensar séria e profundamente sobre aquilo que eu como. Claro, como todo mundo eu tenho aquela coisa lá no fundo da minha cabeça que martela: “sem excessos, sem excessos”. Mas a verdade é que nunca parei para pensar com afinco no que estou comprando quando vou ao supermercado. Infelizmente tem muito mais gente como eu. Felizmente acredito que pouco a pouco, mas cada vez mais, muitas pessoas estão aguçando o olhar no que diz respeito a comida – e não porque estão em busca do corpo perfeito (qual é ele, eu não sei e nem me interessa) ou para emagrecer. Tenho visto um movimento que vai mais em busca do saudável e natural e principalemente desafia um modo de produção ao se dar conta dele.

Salt, sugar, fatÉ exatamente deste último ponto que trata o livro Fat, sugar, salt: how the food giants hooked us (ou “Gordura, açúcar, sal: como os gigantes da comida nos viciaram”, em tradução livre), de Michael Moss, jornalista ganhador do Pulitzer por reportagem explicativa. Aqui, o autor vai atrás da indústria alimentícia para expôr como a nossa comida e nossos hábitos alimentares são (re)produzidos. Veja bem: não se trata de um livro de dietas, para “ensinar” a comer, dar receitas ou eleger vilões do mundo nutricional. O objetivo de Michael Moss é lançar um olhar sobre a indústria dos alimentos que privilegia entender como foram criadas certas ideias e produtos que hoje fazem parte da paisagem dos supermercados e das nossas mesas.

Moss entrevista cientistas, empresários, publicitários, gente de dentro e de fora da indústria, tentando contar a história da comida processada e a criação da ideia da comida conveniente: fácil, rápida e barata. Partindo de trabalhos de laboratório em busca dos sabores irresistíveis que agradam a todos (e fazem querer sempre mais), passando por anúncios publicitários e enfim chegando ao grande objetivo, o lucro, o autor consegue narrar a destrinchar os meandros da criação e produção de um modo de vida.

Os méritos de Moss, no meu entender, estão em não se ater a um ou outro lado, nem tampouco demonizar personagens da história da comida industrializada no século XX. É impressionante, aliás, como os empresários do ramo enxergam seu papel: aquele de prover comidas saborosas, práticas e baratas para camadas sociais que não têm tempo de preparar refeições do zero todos os dias, nem tampouco pagar seu preço. Os mais antigos se lembram claramente do quanto suas criações contribíram para a emancipação feminina em meados do século. Hoje, após décadas de experiência com esses alimentos e mobilizações de associações médicas e de consumidores, esses gigantes da comida se defendem alegando que não são eles quem devem parar de produzir: a escolha de comer ou não está, ao final, no consumidor. É ele quem decide.

Entretanto, coloca-se a questão de como é possível fazer uma escolha consciente quando se tem informações distorcidas – ou desinformação. O marketing é pesado, distorcido a ponto de propagar mentiras sobre os alimentos. A comida industrializada toma conta das prateleiras nos mercados, restando pouco espaço para outros tipos de alimento. Vai sendo criada uma ideia do que é comida, do que é comer, do que é sabor, que responde diretamente aos interesses dessas grandes empresas. E Michael Moss nunca deixa de nos lembrar: empresas estas que respondem a investidores e que, por ofício, objetivam tão somente o lucro. O maior possível.

Eu poderia discorrer longamente sobre esta leitura, que acredito ser necessária para todos: para aqueles que estão em busca de uma alimentação melhor, para os que desejam um insight acerca de algo do nosso cotidiano, ou ainda para os que querem pensar mais sobre o modo de produção e o capitalismo nosso de cada dia. Realmente: nem desejo refrigerante mais.

A Eliane Brum falou (muito muito muito melhor do que eu) sobre o livro e sobre o autor, Michael Moss, aqui. Para quem não se convenceu ainda, recomendo a leitura do texto dela.

***

Título original: Salt, sugar, fat: how the food giants hooked us
Ano de publicação: 2013
Idioma original: Inglês

Infelizmente este livro não foi lançado no Brasil e não encontrei tradução para o Português.

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