Resenha: Americanah | Chimamanda Ngozi Adichie

Há alguns anos atrás me deparei com uma fala interessantíssima sobre o perigo de uma história única. A nigeriana (bonitona) que dava a palestra discorria sobre como temos vários relatos o tempo todo das culturas européias e norte-americanas, e como em contrapartida nos faltam informações sobre outros lugares, pessoas, experiências, levando a uma ideia distorcida do que é, ou pode ser, cada parcela do mundo esquecida, da qual pouco ou nada se fala. Como é o caso da África, vista como um bloco, uma massa homogênea de pobreza, fome e Aids. E só. Eu levo o que escutei naquela fala de menos de 20 minutos até hoje e recomendo a todos, também porque acho que essa reflexão serve para pensarmos em muita coisa além de África (não que esta questão não seja importante, muito pelo contrário).

Tempos depois, tempos mesmo, me lembrei que a mulher daquela palestra tão interessante era uma escritora, e decidi ir atrás de algo dela. Foi aí que me deparei com Meio sol amarelo, livro que entrou para a minha lista das melhores cinco leituras de 2014. E cheia dessas expectativas, levando na memória tantas palavras fortes da autora (e na onda das várias resenhas super positivas), fui com sede ler Americanah.

americanahAmericanah conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana que vai para os Estados Unidos em busca de estudos. Deixa para trás Obinze, seu namorado, que pretende ir logo depois, mas por acontecimentos da vida eles se separam e Ifemelu acaba vivendo 13 anos nos Estados Unidos – até que decide voltar para a Nigéria. O livro vai contando os acontecimentos da infância e adolescência de Ifemelu, das suas relações pessoais e da situação política da Nigéria, bem como chegada em um novo país e seu processo de adaptação.

Entendi que este livro aborda o tema da identidade, passando por raça e choque cultural. Como imigrantes, os vários personagens que acompanhamos tentam lidar com as diferenças culturais com as quais se deparam. Alguns procuram se adaptar, mudam a si mesmos para fazerem parte daquela nova realidade – ou pelo menos tentam. Contudo, a condição de estrangeiro é permanente. Na luta para se sentirem pertencentes ao novo país, trava-se um embate interno na (re)definição da identidade, forjada, nesse novo contexto, muito mais pela visão daqueles de fora. Porque logo os personagens vão percebendo que não basta imitar o wasp (white anglo-saxon protestant – protestante anglo-saxão branco), mas cumprir o papel que deles é esperado: isto é, vai ficando cada vez mais claro ao longo da leitura que não se trata tanto de aprender a ser americano, mas de aprender, no caso dos nigerianos e tantos outros negros africanos e caribenhos, a ser um imigrante negro nos Estados Unidos da América.

Ifemelu lança um olhar aguçado especialmente sobre a temática da raça nos Estados Unidos, fazendo profundos questionamentos a respeito da sociedade americana. Como negra africana, sua visão sobre cor e raça é diferente também daquela dos negros americanos, que carregam uma outra carga de experiência no tocante ao assunto.

É neste ponto, nas experiências e visões de mundo diferentes, que encontrei meu problema com o livro. Enquanto crítica à sociedade estadounidense, Americanah é excelente. Ele cutuca, mexe na ferida, expõe problemas que não podem ser tratados de maneira superficial, porque eles têm raízes que se entrelaçam com outras várias questões e fazem parte daquilo que forma aquela realidade. No entanto, a resposta que Ifemelu dá àquilo que contesta não me parece realmente quebrar com a ideia. O problema da personagem é que, ao imigrar, sua base identitária é abalada porque naquele novo contexto ela é vista de outra maneira e esta nova identidade, ali vista como a única possível de tão óbvia, não corresponde com o que ela tem para si. Em contrapartida, Ifemelu resgata a sua experiência como a verdadeira, perdendo a oportunidade de fazer uma reflexão muito mais profunda acerca das identidades.

americanah1Em suma, Americanah me pareceu um livrossomente razoável, embora acima da média de outras leituras. Chimamanda Ngozi Adichie deixou de tratar com complexidade um assunto que mereceria uma resposta aberta e múltipla.

***

Título original: Americanah
Ano de publicação: 2013
Idioma original: Inglês

Título em português: Americanah
Ano de publicação: 2014
Editora: Companhia das Letras
520 páginas

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s