Arquivo mensal: fevereiro 2015

Vídeo: Livro para filme #1 | Lançamentos de 2015

LIVROS E FILMES MENCIONADOS:

Vício inerente, de Thomas Pynchon
Título original: Inherent vice
Filme: http://www.imdb.com/title/tt1791528/

Longe da multidão, de Thomas Hardy
Título original: Far from the madding crowd
Filme: http://www.imdb.com/title/tt1791528/

Frankenstein, de Mary Shelley
Título original: Frankenstein
Filme: http://www.imdb.com/title/tt1976009/

Madame Bovary, de Gustave Flaubert
Título original: Madame Bovary
Filme: http://www.imdb.com/title/tt2334733/

Carol, de Patricia Highsmith
Título original: Carol (or The price of salt)
Filme: http://www.imdb.com/title/tt2402927/

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs
Título original: Miss Peregrine’s home or peculiar children
Filme: http://www.imdb.com/title/tt1935859/

3 autores para conhecer mais em 2015

Na onda do post sobre autores para conhecer em 2015, pensei também em autores que gostaria muito do conhecer mais. Às vezes nos deparamos com leituras únicas, com estilos e temáticas que nos deixam procurando por mais – não mais do mesmo, mas mais daquela surpresa, mais do inesperado. Aqui minha lista de autores que me deixaram curiosa.

Photo by Suki Dhanda Lionel ShriverLionel Shriver

Precisamos falar sobre o Kevin foi um livro que me perturbou. Lionel Shriver toca em assuntos no mínimo cabeludos; ala coloca o dedo na ferida que todo mundo está tentando ignorar – e cutuca. Pelo que li sobre seus outros livros, esta é uma característica que segue em toda sua obra até o momento.

Pretendo ler:
– Grande irmão
– O mundo pós-aniversário
– A nova república

Alice Munro

OAliceMunros contos de Alice Munro em Ódio, amizade, namoro, amor, casamento me impressionaram muito. São histórias simples, cenas triviais, mas que se mostram pequenos universos da complexidade humana. Especialmente me chamaram a atenção as mulheres dos contos de Munro, pois pela primeira vez eu consegui enxergar mulheres muito reais. A obra de Munro foi premiada diversas vezes, recentemente com o Nobel de Literatura em 2013.

Pretendo ler:
– Vida querida
– O amor de uma boa mulher
– Fugitiva

miacouto

Mia Couto

Vamos ver se este ano emplaco algum romance do Mia Couto. Até agora li do autor apenas dois livros de contos, O fio das missangasCada homem é uma raça. Cada frase do Mia Couto é uma surpresa, é uma maneira nova de usar, torcer e retorcer a língua portuguesa. Seus contos trazem elementos fantásticos misturados à dura realidade de um país, Moçambique, recém saído da guerra de independência.

Pretendo ler:
– Terra sonâmbula
– Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra
– E se Obama fosse africano?

4 autores para 2015

Eu sei que estamos avançados já 2015 adentro para fazer este tipo de post, com visões gerais sobre o ano que se extende à nossa frente, mas vou fazer isso mesmo assim. Vou, a essa altura do campeonato, listar quatro autores que eu gostaria muito de conhecer neste ano.

VirginiaWoolfVirginia Woolf

Eu acho que tirando aquele momento no qual o filme As horas fez muito sucesso (e eu gostava muito da Nicole Kidman), nunca mais tive real interesse em ler Virginia Woolf. Talvez fosse puro desinteresse, talvez receio do que se diz sobre a dificuldade de ler e acompanhar o tão falado fluxo de consciência, mas por mais que houvesse um auê em cima da autora, eu nunca tinha me importado muito com ela. Entretanto, a Francine (do site e canal Livro & Café) finalmente me convenceu. Ela faz mais do que elogiar Virginia Woolf: ela explica, lê em voz alta, coloca em discussão a obra da autora, o que fez brotar em mim um real interesse em ler, se não todas, algumas obras da V.Woolf. O empurrãozinho final foi dado pelo projeto Bastardas, que neste mês de fevereiro lê e discute o livro Um teto todo seu.

Pretendo ler:
Orlando
– Um teto todo seu
– O valor do riso

jorge-luis-borgesJorge Luis Borges

Já ali aqui ali um conto do Borges. Trechos encontramos sempre, destacados aqui e ali. Em epígrafes então… Mas está na hora de sentar e ler o homem. O Homem. Borges faz parte também do projeto Porque ler os clássicos?, que acredito ajudará a dar uma norteada na leitura de sua obra.

Pretendo ler:
– Ficções
– O Aleph

valterhugomaeVálter Hugo Mãe

Morro de vontade, adio constantemente. Entre os livros que moram comigo, já tem alguns da atoria deste português. Eu confesso que no finalzinho de 2014 cheguei a ler um livrito de sua autoria, O paraíso são os outros, mas que é um texto tão curto que não acredito sirva para dizer que se conhece o autor. Sei que partirei para a leitura com um certo medo, dado o tanto de elogios que vejo por aí – sinto-me obrigada a amar porque se não amar é porque não entendi, porque não fui capaz. (Pois é, muita expectativa!) O Válter Hugo Mãe é mega ativo no Instagram, onde posta fotos lindas.

Pretendo ler:
– A máquina de fazer espanhóis
– A desumanização
– O filho de mil homens

philip-k-dick1Philip K. Dick

Esse aqui vem como representante de um gênero que não costumo ler e com o qual tenho certo pé atrás: o gênero de ficção científica. Existem mais autores deste ramo que quero muito, muito mesmo conhecer (como Margaret Atwood), mas por enquanto tenho estado bastante curiosa com Dick, que pelo que vejo tem seus vários fãs fervorosos. Interferiu a seu favor ele ter escrito o livro que inspirou o ótimo Blade Runner.

Pretendo ler:
– Andróides sonham com ovelhas elétricas?
– Ubik

***

Claro, existem outros autores que não li e que definitivamente entram sempre nas minhas listas de pendências. Os citados aqui são apenas os urgentes, os que, espero, deste ano não passam.

Comentários sobre estes autores ou sobre quais escritores vocês estão na fúria para conhecer este ano são bem vindos! 😉

Resenha: Salt, sugar, fat | Michael Moss

Eu nunca fui de pensar séria e profundamente sobre aquilo que eu como. Claro, como todo mundo eu tenho aquela coisa lá no fundo da minha cabeça que martela: “sem excessos, sem excessos”. Mas a verdade é que nunca parei para pensar com afinco no que estou comprando quando vou ao supermercado. Infelizmente tem muito mais gente como eu. Felizmente acredito que pouco a pouco, mas cada vez mais, muitas pessoas estão aguçando o olhar no que diz respeito a comida – e não porque estão em busca do corpo perfeito (qual é ele, eu não sei e nem me interessa) ou para emagrecer. Tenho visto um movimento que vai mais em busca do saudável e natural e principalemente desafia um modo de produção ao se dar conta dele.

Salt, sugar, fatÉ exatamente deste último ponto que trata o livro Fat, sugar, salt: how the food giants hooked us (ou “Gordura, açúcar, sal: como os gigantes da comida nos viciaram”, em tradução livre), de Michael Moss, jornalista ganhador do Pulitzer por reportagem explicativa. Aqui, o autor vai atrás da indústria alimentícia para expôr como a nossa comida e nossos hábitos alimentares são (re)produzidos. Veja bem: não se trata de um livro de dietas, para “ensinar” a comer, dar receitas ou eleger vilões do mundo nutricional. O objetivo de Michael Moss é lançar um olhar sobre a indústria dos alimentos que privilegia entender como foram criadas certas ideias e produtos que hoje fazem parte da paisagem dos supermercados e das nossas mesas.

Moss entrevista cientistas, empresários, publicitários, gente de dentro e de fora da indústria, tentando contar a história da comida processada e a criação da ideia da comida conveniente: fácil, rápida e barata. Partindo de trabalhos de laboratório em busca dos sabores irresistíveis que agradam a todos (e fazem querer sempre mais), passando por anúncios publicitários e enfim chegando ao grande objetivo, o lucro, o autor consegue narrar a destrinchar os meandros da criação e produção de um modo de vida.

Os méritos de Moss, no meu entender, estão em não se ater a um ou outro lado, nem tampouco demonizar personagens da história da comida industrializada no século XX. É impressionante, aliás, como os empresários do ramo enxergam seu papel: aquele de prover comidas saborosas, práticas e baratas para camadas sociais que não têm tempo de preparar refeições do zero todos os dias, nem tampouco pagar seu preço. Os mais antigos se lembram claramente do quanto suas criações contribíram para a emancipação feminina em meados do século. Hoje, após décadas de experiência com esses alimentos e mobilizações de associações médicas e de consumidores, esses gigantes da comida se defendem alegando que não são eles quem devem parar de produzir: a escolha de comer ou não está, ao final, no consumidor. É ele quem decide.

Entretanto, coloca-se a questão de como é possível fazer uma escolha consciente quando se tem informações distorcidas – ou desinformação. O marketing é pesado, distorcido a ponto de propagar mentiras sobre os alimentos. A comida industrializada toma conta das prateleiras nos mercados, restando pouco espaço para outros tipos de alimento. Vai sendo criada uma ideia do que é comida, do que é comer, do que é sabor, que responde diretamente aos interesses dessas grandes empresas. E Michael Moss nunca deixa de nos lembrar: empresas estas que respondem a investidores e que, por ofício, objetivam tão somente o lucro. O maior possível.

Eu poderia discorrer longamente sobre esta leitura, que acredito ser necessária para todos: para aqueles que estão em busca de uma alimentação melhor, para os que desejam um insight acerca de algo do nosso cotidiano, ou ainda para os que querem pensar mais sobre o modo de produção e o capitalismo nosso de cada dia. Realmente: nem desejo refrigerante mais.

A Eliane Brum falou (muito muito muito melhor do que eu) sobre o livro e sobre o autor, Michael Moss, aqui. Para quem não se convenceu ainda, recomendo a leitura do texto dela.

***

Título original: Salt, sugar, fat: how the food giants hooked us
Ano de publicação: 2013
Idioma original: Inglês

Infelizmente este livro não foi lançado no Brasil e não encontrei tradução para o Português.

Resenha: Americanah | Chimamanda Ngozi Adichie

Há alguns anos atrás me deparei com uma fala interessantíssima sobre o perigo de uma história única. A nigeriana (bonitona) que dava a palestra discorria sobre como temos vários relatos o tempo todo das culturas européias e norte-americanas, e como em contrapartida nos faltam informações sobre outros lugares, pessoas, experiências, levando a uma ideia distorcida do que é, ou pode ser, cada parcela do mundo esquecida, da qual pouco ou nada se fala. Como é o caso da África, vista como um bloco, uma massa homogênea de pobreza, fome e Aids. E só. Eu levo o que escutei naquela fala de menos de 20 minutos até hoje e recomendo a todos, também porque acho que essa reflexão serve para pensarmos em muita coisa além de África (não que esta questão não seja importante, muito pelo contrário).

Tempos depois, tempos mesmo, me lembrei que a mulher daquela palestra tão interessante era uma escritora, e decidi ir atrás de algo dela. Foi aí que me deparei com Meio sol amarelo, livro que entrou para a minha lista das melhores cinco leituras de 2014. E cheia dessas expectativas, levando na memória tantas palavras fortes da autora (e na onda das várias resenhas super positivas), fui com sede ler Americanah.

americanahAmericanah conta a história de Ifemelu, uma jovem nigeriana que vai para os Estados Unidos em busca de estudos. Deixa para trás Obinze, seu namorado, que pretende ir logo depois, mas por acontecimentos da vida eles se separam e Ifemelu acaba vivendo 13 anos nos Estados Unidos – até que decide voltar para a Nigéria. O livro vai contando os acontecimentos da infância e adolescência de Ifemelu, das suas relações pessoais e da situação política da Nigéria, bem como chegada em um novo país e seu processo de adaptação.

Entendi que este livro aborda o tema da identidade, passando por raça e choque cultural. Como imigrantes, os vários personagens que acompanhamos tentam lidar com as diferenças culturais com as quais se deparam. Alguns procuram se adaptar, mudam a si mesmos para fazerem parte daquela nova realidade – ou pelo menos tentam. Contudo, a condição de estrangeiro é permanente. Na luta para se sentirem pertencentes ao novo país, trava-se um embate interno na (re)definição da identidade, forjada, nesse novo contexto, muito mais pela visão daqueles de fora. Porque logo os personagens vão percebendo que não basta imitar o wasp (white anglo-saxon protestant – protestante anglo-saxão branco), mas cumprir o papel que deles é esperado: isto é, vai ficando cada vez mais claro ao longo da leitura que não se trata tanto de aprender a ser americano, mas de aprender, no caso dos nigerianos e tantos outros negros africanos e caribenhos, a ser um imigrante negro nos Estados Unidos da América.

Ifemelu lança um olhar aguçado especialmente sobre a temática da raça nos Estados Unidos, fazendo profundos questionamentos a respeito da sociedade americana. Como negra africana, sua visão sobre cor e raça é diferente também daquela dos negros americanos, que carregam uma outra carga de experiência no tocante ao assunto.

É neste ponto, nas experiências e visões de mundo diferentes, que encontrei meu problema com o livro. Enquanto crítica à sociedade estadounidense, Americanah é excelente. Ele cutuca, mexe na ferida, expõe problemas que não podem ser tratados de maneira superficial, porque eles têm raízes que se entrelaçam com outras várias questões e fazem parte daquilo que forma aquela realidade. No entanto, a resposta que Ifemelu dá àquilo que contesta não me parece realmente quebrar com a ideia. O problema da personagem é que, ao imigrar, sua base identitária é abalada porque naquele novo contexto ela é vista de outra maneira e esta nova identidade, ali vista como a única possível de tão óbvia, não corresponde com o que ela tem para si. Em contrapartida, Ifemelu resgata a sua experiência como a verdadeira, perdendo a oportunidade de fazer uma reflexão muito mais profunda acerca das identidades.

americanah1Em suma, Americanah me pareceu um livrossomente razoável, embora acima da média de outras leituras. Chimamanda Ngozi Adichie deixou de tratar com complexidade um assunto que mereceria uma resposta aberta e múltipla.

***

Título original: Americanah
Ano de publicação: 2013
Idioma original: Inglês

Título em português: Americanah
Ano de publicação: 2014
Editora: Companhia das Letras
520 páginas