Arquivo mensal: dezembro 2014

Futurologia: meta para 2015

Uma pequena retrospectiva para começar.

Até a metade deste ano eu estava em um certo ritmo de leitura. Embora eu não lesse tanto quanto outras pessoas que falam sobre literatura na internet, era uma média maior do que a que eu estava acostumada. Eu havia criado este blog e um canal no YouTube e precisava de assunto. A partir do meio do ano, com algumas mudanças na minha vida, diminuí drasticamente meu passo e, após resolver algumas coisas e retomar minhas leituras, resolvi me dar o tempo.

Percebi que meu ritmo é outro. Não é corrido, não devoro todos os livros que eu leio. Para usar uma metáfora da corrida, acho que tenho sprints, uns arrancos nos quais mergulho numa leitura, e outros momentos mais lentos, uns hiatos. Um leitor, acredito, não é definido necessariamente pela quantidade de livros que lê em um ano. A minha ficha para isso caiu verdadeiramente só agora: eu preciso de tempo para digerir, eu gosto dos intervalos para pensar sobre o que leio.

Desta forma, resolvi não me colocar uma meta de quantidade de livros. Também não pretendo participar de desafios (embora pretenda me juntar a alguns desafios de acordo com o meu interesse). É verdade que me lancei o Projeto Por que ler os clássicos, mas ele não tem prazo. Percebi, no entanto, que leio em grande parte homens brancos europeus. Achei preocupante. Sendo assim, a única premissa que pretendo seguir é a de tentar diversificar minhas leituras.

A Juliana Brina do blog e canal o pintassilgo, coincidentemente (ou não – acho que, felizmente, o movimento pela diversificação na literatura agora existe e se fortalece cada vez mais) publicou um vídeo-convite para 2015. Eu aceitei e espero comparecer.

Leituras temáticas: Natal 2014

Eu gosto de Natal. Não porque seja religiosa (me identifico como ateia), embora ache bonitos certos aspectos das crenças e rituais. Não é pelos presentes também – não ganho muitos e nem graúdos, nunca fui criança com aquele monte de pacotes debaixo da árvore. Gosto da desculpa para comer, é verdade, mas também não é isso.

Eu aprecio o Natal, acho, pelas minhas lembranças de infância. Porque na minha casa sempre me incentivaram a ler contos de fadas e imaginar coisas mirabolantes em cima deles. Sempre vi filmes mágicos e gostei de escutar histórias fantásticas – e da temática Natal saem muitas histórias assim, de mundos desconhecidos, acontecimentos impossíveis…

Geralmente tento ver filmes natalinos em dezembro, talvez para absorver que estou nesta época do ano, para sentir a passagem de tempo mesmo. Neste ano, no entanto, por causa do blog resolvi deixar os filmes e me aventurar pelos livros. Escolhi três, todos infantis:

Olivia ajuda no Natal, de Ian FalconerDesde que pus os olhos nessa série de livros do Ian Falconer não sosseguei. (Deve ser por pura vaidade mesmo.) Li o primeiro livro da série, Olivia, e achei o máximo. (Ainda a vaidade.) Olivia é uma porquinha criança, com seus 6 anos de idade, e muito empolgada com tudo: livros, museus, ópera, ballet… Mas da maneira que uma criança pode gostar e apreciar. Eu gosto da Olivia porque ela não é uma criança impossível como em muitos livros e filmes infantis: ela é crível e, mais importante, é inteligente e está sempre atenta – e sempre criando. E é empolgada. Sabem criança empolgada com cantar, dançar e por aí vai? (Quem me lê falando isso tudo sobre crianças deve achar que tenho uma renca, mas infelizmente nem me dou bem com elas. São outro mundo para mim.). Enfim. Em Olivia ajuda no Natal (Editora Globo, 2.ed., 2011, 55 p.), este livrinho curtíssimo e com ótimas ilustrações, a Olivia e seus irmãozinhos e família se preparam para o Natal, com tudo que sempre tem em histórias de Natal: compras de presentes, decoração, ceia, Papai Noel e desembrulhar. Este livro, em particular, não é nada demais, mas é agradável.

Cartas do Papai NoelEm Cartas do Papai Noel (Martins Fontes, 2012, 163p.), J.R.R. Tolkien quase partiu meu coração. Esse livrinho traz todas as cartas que Tolkien escreveu aos seus filhos entre os anos de 1923 e 1943 como se fosse o próprio Papai Noel. Ele conta sobre sua casa, trabalho e outras criaturas do seu dia-a-dia no Polo Norte. Eu nem tenho outra palavra para descrever isso a não ser “mágico”. Fiquei me colocando o tempo todo no lugar de uma criança recebendo cartas do Papai Noel, com desenhos coloridos, caligrafia elaborada e selos do Polo Norte. Teria sido realmente mágico. Em várias cartas há também intervenções de amigos como o Urso Polar, que coloca comentários nas laterias das cartas, assina com sua patinha e se enrola para falar e escrever uma língua que não é a sua. Durante 20 anos Tolkien criou um mundo coeso para seus filhos baseado no fantástico e no maravilhoso, alimentando as imaginações de seus filhos. Se eu tiver filhos algum dia na vida, vou querer fazer isso também.

Papai Noel velhinho de muitos nomes

Por fim, Papai Noel: um velhinho de muitos nomes (Companhia das Letrinhas, 1995, 47 p.) foi um livro que me surpreendeu. Dos vários textos de autores como Tolkien, Maria Rita Kehl, Heloísa Prieto, dentre outro, a apresentação de Tatiana Belinky, por exemplo, me parece ser de uma profundidade e sensibilidade mais propícia para adultos. Aliás, uma das partes mais tocantes é quando ela conta de seu filho que queria que Deus existisse porque gostaria de pedir que Papai Noel existisse. De reflexões acerca das várias raízes que cercam as celebrações do Natal até histórias de Natais perdidos e crianças desesperadas por seus presentes, as histórias, em toda a sua variedade, parecem chamar a atenção para a ideia de que não existe certo e errado quando falamos de culturas, que não existe hierarquia entre elas – e mais ainda: que vivemos num híbrido, numa conexão de vários mitos e tradições que se adaptam e readaptam. A história de Lilia Mortiz Schwarcz, de um menino frustrado por ir passar o Natal com seu pai antropólogo numa tribo indígena no Pará, dá bem a tônica: todas as culturas são válidas.

***

Quando eu era pequena, meu pai se sentava comigo todo dezembro para pensar num presente que fosse condizente com meu “merecimento” naquele ano (acho que tinha mais a ver com compatibilidade financeira…) e escrever uma carta ao Papai Noel. Ele também me levava até uma agência dos Correios para que eu colocasse na caixa “Correio Internacional” meu envelope devidamente endereçado:

Papai Noel
Polo Norte

Tatiana Belinky escreve, sobre aqueles que dizem que alimentar histórias sobre Papai Noel é enganar as crianças: “como se as crianças, desde pequenininhas, não soubessem muito bem o que é faz-de-conta, e não embarcassem nesta fantasia, como em tantas outras, e delas desembarcassem quando bem lhes apetecesse…”. Acho que a gente sabe e não sabe, mas concordo que incentivar a imaginação pode nos dar mais possibilidades de interpretações do que chamamos de mundo real.

FELIZ NATAL!

Feliz natal! Biblioconto

Projeto: Por que ler os clássicos

Decidi colocar em prática e publicizar um projeto sobre o qual venho pensando já há uns bons meses.

O Projeto Por Que Ler os Clássicos é baseado no livro de mesmo nome do escritor italiano Italo Calvino, que contém pequenos capítulos sobre 32 textos ou autores considerados clássicos da literatura mundial.

Por que ler os clássicos, Italo CalvinoNão estou colocando prazo para isto no momento, mas estando o projeto criado, acabamos direcionando, aqui e ali, as leituras para o que está proposto. Também não me prenderei a ler na ordem – vou indo no que me der vontade. Ainda não procurei por traduções de todos os livros e nem sei se todos estão em português (na edição que tenho de “Por que ler os clássicos”, da Companhia de Bolso, vários estão com títulos não traduzidos), então recorrerei a idiomas estrangeiros que domino o suficiente para me aventurar na leitura (espanhol e inglês – o alemão, coitado, foi ficando para trás sem nunca ter estado exatamente à frente).

Segue a lista de obras/autores que mereceram um capítulo no livro do Calvino:

A Odisséia, de Homero
Anábase, de Xenofonte
Metamorfoses, de Ovídio
História natural, de Plínio
As sete princesas, de Nezami*
Tirant lo Blanc, de Joanot Martorell e Martí Joan de Galba / Don Quixote, de Miguel de Cervantes**
Orlando furioso, Matteo Maria Boiardo
De propria vita, de Gerolamo Cardan
Galileu Galilei
Histoire comique des états et empires de la Lune, de Cyrano de Bergerac
Robinson Crusoe, de Daniel Defoe
Cândido, de Voltaire
Jacques, o fatalista, e seu amo, de Denis Diderot
Giammaria Ortes
Stendhal
Balzac ***
Our mutual friend, de Charles Dickens
Três contos, de Gustave Flaubert
Dois hussardos, de Lev Tolstói
O homem que corrompeu Hadleyburg, de Mark Twain
Daisy Miller, de Henry James
O pavilhão nas dunas, de Robert Louis Stevenson
Joseph Conrad
O doutor Jivago, de Boris Pasternak
La cognizione del dolore / Quer pasticciaccio brutto de via Merulana, de Carlo Emilio Gadda
Eugenio Montale
Ernest Hemingway
Francis Ponge
Jorge Luis Borges
Raymond Queneau
La luna e i faló, de Cesare Pavese

*Esse vai ser complicado, parece que o Calvino se refere a uma tradução específica para o italiano, feita por Alessandro Bausani.
** O capítulo parece discorrer sobre vários romances de cavalaria, sobretudo na relação entre as duas obras citadas. Vou escolher apenas uma para o desafio.
*** Calvino fala especificamente da cidade na obra de Balzac. Assim, ainda farei uma seleção de histórias que se encaixem na temática.