Arquivo mensal: novembro 2014

Audiobooks: cega por uns dias

Nunca entendi o apelo dos audiobooks. Já vi muita gente falando da praticidade, da possibilidade do multitasking e tudo mais. Mas sinceramente, jamais me chamou a atenção. Mesmo porque fazer muita coisa ao mesmo tempo, bem, nunca foi meu forte – acho inconcebível prestar atenção numa fala enquanto, sei lá, arrumo a cozinha. Eu acabo me perdendo.

Mas eis que eu tive que ficar uns dias sem usar meus olhos, porque não dava mesmo. Agora pertenço a um novo: o das pessoas sem óculos. Só que pra chegar aqui tem laser, cirurgia, colírios, lacrimejamento intenso, ardência… Enfim, um processo meio tenso. E como eu não ia poder fazer NADA, tive que me carregar de livros em áudio, porque só de música eu não ia conseguir viver – infelizmente chega uma hora que meus ouvidos se cansam.

A escolha pelo áudiolivro, eu diria, é um tanto quanto diferente da escolha por um livro comum. Há muito que tem que ser levado em consideração, mas eu destaco dois aspectos: o tipo de história que você acha que gostaria que te seja contada e o narrador. Vou apresentar os livros que li/ouvi nesses 5 dias para dar uma ideia: Garota exemplar (Gillian Flynn), Orange is the new black (Piper Kerman) e Seriously… I’m kidding (Ellen DeGeneres). Como dá para perceber, tentei escolher livros com narrativas menos densas e intimistas, que fossem mais propícias para serem contadas: sem frases muito longas ou escrita muito rebuscada, o que exigiria maior concentração e, acredito, devam ser lidos no ritmo individual do leitor.

Gone Girl, de Gillian Flynn

Imaginei que Garota exemplar, por se tratar de um suspense e por ser um best-seller, isto é, um livro lido por muitos, seria agradável de acompanhar. Realmente foi uma boa escolha. O suspense faz com que fiquemos atentos, os narradores (o livro é narrado em primeira pessoa, alternando os capítulos – Ben, o marido, e Amy, a esposa desaparecida) parecem ser atores, realmente usando de entonações, conversando mesmo.

Orange is the new black, de Piper Kerman

Orange is the new black, por outro lado, trata-se de um livro de memórias do tempo em que a autora passou na prisão. Não é narrado pela própria autora, mas ainda assim é em primeira pessoa. A narradora muda de voz quando vai fazer diálogos entre outras pessoas (fiquei sabendo depois que é usado um software para alterar a voz. No entanto, a alteração não é tão profunda a ponto de parecer outra pessoa – a sensação é de alguém contando uma história e imitando as vozes dos outros.).

Seriously... I'm kidding, de Ellen DeGeneres

Por fim, Seriously… I’m kidding, um livro de comédia, é narrado pela própria autora e comediante. Tinha ficado empolgada com este, pois geralmente os livros de comédia são narrados pelos próprios escritores e costumam estar entre os mais vendidos. Não posso dizer por todos, apenas por este em particular, mas como ele parece ter sido totalmente adaptado para ser um áudio, soou como uma série de piadas ensaiadas demais

No geral, no entanto, achei uma experiência interessante para quando estamos com os olhos cansados, talvez para quem dirige por trajetos mais longos ou para quando o transporte público está muito cheio e não dá para segurar um livro. Entretanto trata-se de uma experiência um tanto quanto engessante, já que ficamos com uma leitura: um ritmo, uma entonação, uma voz… Fica menos para nós, como leitores. Menos para a imaginação, para a apropriação.

P.S.: Li/ouvi todos os livros em inglês. Não sei dizer sobre as edições brasileiras de áudiolivros.

Aos meus amigos de literatura

Nos últimos meses eu praticamente não consegui terminar livros. Isto é, livros que leio para diversão, sem o compromisso dos estudos. Também não tenho acompanhado blogs e vlogs sobre literatura – basicamente por falta de tempo, mas também porque não tenho me interessado tanto. Tanta coisa aconteceu nos últimos meses, não é?

Esta atualização, que venho pensando em escrever há algum tempo, é apenas para dizer que: i) o blog não morreu e eu pretendo voltar a atualizá-lo em breve e ii) através desta comunidade de leitores posso dizer que entrei em contato com pessoas muito legais, sensacionais na verdade.

O post de hoje é basicamente um agradecimento, um “alô” feliz para pessoas que não só têm muito em comum comigo no sentido das leituras e do interesse pelo mundo dos livros, da leitura, dos autores e tudo mais. Mais do que isso, são pessoas as quais fiquei muito feliz de “conhecer” (ainda que nunca ao vivo, no tête-à-tête) e das quais passei a gostar pelo que elas são de uma maneira mais… completa. Sempre digo em minhas resenhas que elas são íntimas, que minha opinião diz muito sobre mim, e acredito ser assim com todos. Nossos comentários sobre as leituras que fazemos dizem muito sobre nossa visão de mundo: vemos preto e branco ou enxergamos nuances? encaixamos o que se apresenta a nós em categorias pré-definidas ou nos abrimos ao desconhecido, ao novo? Acredito que a realidade é mais complicada do que simples, mais densa do que plana. Fico feliz por ter encontrado leitores no sentido mais profundo da palavra: pessoas que tecem resenhas detalhadas de livros, cheias de sentimentos e impressões pessoais, mas que também interpretam a sociedade, que não se resumem ao texto escrito – que lêem o mundo.

O processo eleitoral (não poderia fugir dele) foi uma oportunidade de conhecer a fundo algumas pessoas. Várias delas, na verdade. Sinto uma profunda satisfação de estar cercada, sempre, de gente de olhar aguçado.

Abraços a todos vocês!