Arquivo mensal: julho 2014

Resenha: A fantástica vida breve de Oscar Wao | Junot Díaz

But no matter what the truth, remember: Dominicans are Caribbean and therefore have an extraordinary tolerance for extreme phenomena. How else could we have survived what we have survived?
(p. 155)

“A vida breve de Oscar Wao” (ganhador do Prêmio Pulitzer de Ficcção em 2008) me pegou desprevenida. De tudo o que achei que ele poderia ser, foi diferente – e foi mais. As sinopses falam geralmente da experiência do imigrante nos Estados Unidos ou da “nerdice” do personagem principal, Oscar – mas há muito mais nesse livro. Eu diria que é uma saga: a saga de uma família dominicana desde a Era de Trujillo (general que comandou a República Dominicana de 1930 a 1961) até o fim dos anos 1990.

a-fantastica-vida-breve-de-oscar-waoAcompanhamos o jovem Oscar, filho de dominicanos nascido nos EUA. Oscar representa aquela encruzilhada na qual vivem tantos filhos de imigrantes: ele não pertence a lugar nenhum e a grupo nenhum. Não é dominicano porque é gordo, nerd e não é o modelo de macho alfa. Tampouco pode ser americano porque é, primeira e unicamente, latino. A explicação para o azar de Oscar é, obviamente, o sobrenatural: a família carregaria alguma maldição, ou fukú, como é comumente chamada na República Dominicana. O fukú teria origem nos navios negreiros vindos da África, na própria escravidão. É a maldição do Novo Mundo.

Para falar de Oscar, é preciso falar de sua família: irmã, mãe, avós. Para falar das complicadas relações familiares e da comunidade dominicana nos EUA, é necessário retornar à República Dominicana e desenterrar demônios – o que não é fácil. Com uma história de repressão, acostumou-se a não falar, a calar, e a encontrar respostas, cada vez mais, no sobrenatural.

Shit was so tight that people actually believed that Trujillo had supernatural powers! It was whispered that he did not sleep, did not sweat, that he could see, smell, feel events hundreds of miles away, that he was protected by the most evil fukú on the Island. (You wonder why two generations later our parents are still so damn secretive, why you’ll find out your brother ain’t your brother only by accident.
(p.235)

Vários dos problemas nas relações interpessoais neste livro têm origem neste silêncio. As coisas são ditas pelas metades, o passado é a página em branco sobre a qual ninguém quer escrever. É doloroso demais e melhor deixado quieto. O problema da famíliar de León é o problema da América Latina, esse de escarafunchar o passado duro, enfrentar e olhar de frente nossas falhas. No Brasil, por exemplo, estamos apenas nos últimos dois anos abrindo os arquivos da ditadura! Faltam debates sobre nossa polícia militarizada, sobre censura, sobre racismo (abolimos a escravidão, sob muitos protestos, há pouco mais de 100 anos!). Falta falar muito ainda.

Quanto à linguagem, eu diria que Junot Díaz conseguiu dar voz ao imigrante. Seu livro é escrito numa espécie de Spanglish: se o grosso está em inglês, não deixa de estar cheio de palavras e expressões inteiras em espanhol – em com gírias. Acho que quem já viveu por algum tempo em outro país e conviveu, enquanto fora, com alguns conterrâneos, entende bem isso. É uma mistura de idioma e de referências culturais que falam muito desse sem-lugar que está o imigrante. Além dessa mescla de idiomas, Díaz traz ainda várias alusões a livros, jogos, filmes, séries e quadrinhos na narrativa (lembremos, Oscar é um super nerd). Fiquei pensando como se pode contar a mesma história de mil maneiras diferentes dependendo de nossas referências.

brief wondrous life of oscar waoPor fim, eu gostaria de lembrar que, embora o tema da imigração pareça um pouco distante (hoje o Brasil está em condições até de receber estrangeiros – não só os nossos vizinhos, mas também europeus e americanos) e nós nunca tenhamos visto uma emigração tão grande quanto outros países viveram em suas histórias recentes, até pouco tempo atrás nosso sonho, assim como o de toda a América Latina, era emigrar para os Estados Unidos. Em 2005 a principal novela da Globo era justamente “América”.  Junot Díaz trata dessa saída de gente de seu país de Diáspora. Chega a falar da Alemanha nazista quando diz que, infelizmente, o Trujillato não nutria o mesmo apreço pela documentação que os alemães. E embora o autor não fale exatamente isso, eu deixo aqui então o que eu quero falar: por que numa história de catástrofes, ditaduras, silêncios, espancamentos, desaparecidos e mortes a torto e a direito, umas tragédias são mais tragédias que outras?

Nós temos uma história complicada. Nós brasileiros, nós latino-americanos. Nestes tempos de escalada do conflito entre Israel e Palestina, muito se fala de genocídio, violência, raízes históricas… Estamos tentando entender o Oriente Médio, temos incontáveis livros e filmes sobre o holocausto (palavra que vem sempre com uma espécie de subtítulo: a maior tragédia da história da humanidade). No entanto, pouco fazemos para entender nós mesmos e a nossa sociedade. Não estou dizendo que o de lá é menos importante, mas que podemos e devemos tentar nos compreender. Afinal de contas, entendo que não falar dos nossos conflitos e tumultos é passar a ideia de que não temos problemas. E eu não conheço uma pessoa sequer que ache que nós não temos problemas.

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Título original: The brief wondrous life of Oscar Wao
Ano de publicação: 2007
Idioma original: Inglês

Título em português: A fantástica vida breve de Oscar Wao
Ano de publicação: 2009
Editora: Record
336 páginas

Resenha: Fangirl | Rainbow Rowell

Não sou lá de ler jovem-adulto (young adult), mas um pouco por causa do Desafio Literário do Skoob (mais sobre aqui) resolvi tentar mais um. Explicando: assim que comecei a ver vídeos sobre livros no YouTube, só havia vídeos sobre leituras YA. Até então eu desconhecia o gênero, mas a coisa parecia tão grande e tão boa pelo que eu via nos comentários, que fiquei curiosíssima. Fiquei super decepcionada porque não encontrei nada que me agradasse, então deixei de lado e desisti mesmo. Isto é, até o Desafio.

Na verdade dei uma trapaceada no Desafio. A Michelle tinha me indicado uma outra leitura, mas como era um livro em alemão e eu não ando lá com essa capacidade de concentração, decidi partir pra algo fácil. Resolvi pegar Fangirl porque há um tempo que está um auê por causa dos livros da Rainbow Rowell e este era o primeiro do qual tinha ouvido falar.

Fangirl

Fangirl conta a história de Cath, uma caloura na universidade. Ela tem uma irmã gêmea e escreve fanfiction (histórias com personagens de outros livros) da série do bruxo Simon Snow (algo tipo Harry Potter). Famosa na internet, suas histórias fazem muito sucesso e ela dedica grande parte do seu tempo escrevendo para a internet – Cath é a típica fâ nerd: seu quarto é decorado com pôsters, faixas, bonecos, canecas, adesivos e o que mais houver sobre a série. Seu guarda roupa é basicamente formado de camisetas da franquia. Ela respira Simon Snow. No entanto, quando ela vai para a universidade perde sua melhor amiga, a irmã gêmea Wren, que não quer mais saber de ser super fã e prefere curtir a universidade. Cath é a menina estranha tentando encontrar seu lugar nesse novo mundo e, claro, vive uns romances.

Apesar da bobice toda que é o livro, eu não conseguia parar de ler. Acho que existe algo em cenas românticas fofas que me fazem literalmente prender a respiração pra ver o que vai acontecer.

O livro, no entanto, tem certos pontos que me incomodaram bastante. Destaco apenas dois: 1) os trechos das histórias de Simon Snow eram muito extensos e não acrescentaram nada à história; 2) os personagens são muito superficiais (e este é sempre meu maior problema com YA, junto com os diálogos fracos) e suas ações, decisões e envolvimentos parecem sem fundamento. É difícil entender porque chegam a determinadas conclusões ou mesmo porque gostam de alguém. E até acho que havia espaço para desenvolver os personagens, mas as saídas encontradas pela autora foram muito fáceis, óbvias e superficiais.

De maneira geral, um livro gostoso de ler para quem procura algo fácil ou um romance leve. Não sei se lerei algo mais da autora. Vi que ela lançou na última semana um livro voltado para o público adulto, Landline. Quem sabe?

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Título original: Fangirl
Ano de publicação: 2013
Idioma original: Inglês

Ainda não há edição brasileira. Outro livro da autora, Eleanor & Park, foi publicado neste ano pela Novo Século.

Resenha: Confissões de uma groupie: I’m with the band | Pamela Des Barres

Eu gosto bastante de livros e filmes sobre a história do rock. Devorei Mate-me, por favor impressionada com os depoimentos sobre o mundo underground e o nascimento do punk rock. Não conseguia parar de assistir as dez horas do documentário The History of Rock’n’Roll e já vi inúmeras vezes filmes como The Wonders – o sonho não acabouVelvet Goldmine e Quase Famosos. Especialmente Quase Famosos.

Sempre ficou comigo, aliás, o que algumas personagens do filme falavam sobre groupies – garotas que são fãs de bandas de rock e que seguem seus ídolos incansavelmente. Não me esqueço de uma que dizia que elas eram a inspiração, que estavam ali para dar ajuda e apoio aos músicos: elas eram band aids (na tradução literal, ajudantes de banda – numa referência ao curativo). Assim, me empolguei bastante ao encontrar este livro de Pamela Des Barres, a mulher que inspirou a própria Penny Lane do filme.

Confissões de uma groupieÉ difícil falar sobre um livro de memórias. No final das contas, não sei até que ponto já deixei de falar do livro em si e passei a falar da pessoa, da vida dela, da vida que ela resolveu contar. De qualquer maneira, um breve resumo de Miss P.: Pamela era uma adolescente em Los Angeles no final dos anos 1960 que amava os Beatles e os Rolling Stones (foi mal, não deu pra segurar). Ao se formar no high school resolve fazer de sua vida frequentar os lugares nos quais “as coisas acontecem” na cidade, onde ela acaba adentrando a cena musical e conhecendo vários artistas. No livro ela fala basicamente da sua vida desde adolescente, passando por suas experiências com drogas e sexo com diversos músicos – até “se aposentar” como groupie.

Talvez o grande problema para mim em relação a este livro é o modo como ele é escrito. É verdade que Miss Pamela mantinha diários e que o livro é cheio de trechos deles, mas parece que a linguagem permanece a mesma desde aquela época até o momento em que ela escreve o livro (em 1987): quase aos 40 anos de idade ela segue escrevendo como uma adolescente. Mais uma vez digo: é difícil falar de memórias. Ela aparentemente está completamente satisfeita com a vida dela (o que é excelente e completamente plausível), mas fico pensando se, com o passar do tempo, a visão que temos não vai mudando. Não estava esperando que ela se arrependesse de nada, mas seria interessante ter visto comentários mais profundos da Pamela “atual” em relação aos seus pensamentos e ações do passado. Me parece que faltou o que considero fundamental em memórias, que é a reflexão. Do jeito que está me pareceu mais um diário comum de adolescente.

No entanto, fiquei pensando sobre groupies. A impressão que tive foi a de uma adolescente como qualquer outra (inclusive da atualidade) que ama incondicionalmente seus ídolos, sonha com eles, escreve cartas e faz piadas com amigas. (Acho que já fui assim com: Leonardo Di Caprio, Backstreet Boys, Ewan McGregor e Jonathan Rhys Meyers no filme Velvet Goldmine, e Tilo Wolff da banda Lacrimosa – uma banda gótica alemã. Pra vocês verem!) Fico lembrando de mim mesma como adolescente e como tudo era extremo: amar uma música, por exemplo, meio que poderia me fazer amar o cantor/compositor. Bom, o ponto aqui é: groupies simplesmente foram fundo. Eram meninas (sim, porque inicialmente eram meninas mesmo) que estavam no lugar certo e na hora certa – neste caso, a LA dos anos 60.

I'm with the bandEu esperava mais dos bastidores do rock propriamente dito, das vidas de músicos na estrada ou das relações que eram estabelecidas. Pamela Des Barres dá pouco disso em seu livro, que é mais concentrado nas obsessões amorosas dela. Ainda assim, é um relato de uma fã: fã que conseguiu se aproximar, para inveja de muitos, de grandes ídolos do rock como Mick Jagger, Jimmy Page e Keith Moon.

Ainda estou interessada em seguir lendo sobre o rock. Antes estava até razoavelmente interessada em um livro da Patti Boyd, mas depois de ler algumas resenhas cheguei à conclusão que será muito parecido com este aqui (embora ela tenha realmente sido próxima do crème de la crème da música). Alguém teria mais livros sobre o mundo da música para recomendar?

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Título original: I’m with the band: confessions of a groupie
Ano de publicação: 1987
Idioma original: Inglês

Título em português: Confissões de uma groupie: I’m with the band
Ano de publicação: 2004
Editora: Barracuda
272 páginas

Off-topic: Diários e Organização | Bullet Journal

Outro dia me deparei com um vídeo falando em linhas gerais sobre bullet journal. Fiquei ultra interessada e fui procurar mais. O bullet journal, criado por Ryder Carroll, é um método de organizar tarefas, eventos e ideias, tudo em um lugar só e com o bom e velho papel. Eu, que já tentei agendas grandes e pequenas, Google Calendar e 34194012 aplicativos para celular, fiquei interessada. A premissa é bastante simples, como explica o próprio criador (não O criador. Criador do método apenas.):

Então, basicamente é necessario um caderno que satisfaça suas necessidades de tamanho, peso, estilo de papel e linhas; e uma caneta. Et voilà. Inicia-se por uma página que conterá o sumário, que será sendo construído a medida em que o caderno vai sendo preenchido (mais sobre isso adiante), portanto é preciso que as páginas estejam numeradas. A página seguinte é dedicada ao mês inteiro: cada linha é um dia do mês, que vem também sinalizado com a primeira letra do dia da semana. Na página ao lado é criada uma lista geral de coisas previstas para o mês. Na próxima página em branco inicia-se a parte dos dias: a cada dia você cria sua lista de tarefas que vai tendo outras coisas adicionadas ou riscadas.

Neste ponto é bom lembrar: este método de organização é baseado em tópicos, o que quer dizer então entradas simples, sem nada muito elaborado. Para cada tipo de entrada há um tipo de tópico (por exemplo: quadrado para tarefa, triângulo para compromisso com lugar e hora marcados, círculo para evento, ponto para notas gerais etc.). Também são colocadas outras sinalizações ao lado indicando prioridade (estrela/asterisco) ou urgência (exclamação). Às vezes alguém te fala sobre um assunto e você quer pesquisar sobre isso mais tarde, então pode adicionar um desenho ali também (o criador indica um olho). Enfim, nessa parte as possibilidades são enormes e cada um vai criando sua legenda.

Mas vamos supor que você não tenha cumprido todas as suas tarefas. Quando você fechar um dia e começar outro, colocando as tarefas para aquele dia, é só repetir aquilo que ficou faltando completar. Acho que essa repetição pode me ajudar a lembrar das coisas, porque além do problema crônico de procrastinação que afeta a todos nós, eu ainda por cima tenho uma memória terrível.

Bullet Journal 1

No entanto, às vezes precisamos criar listas de outros assuntos, que não se encaixariam numa lista de tarefas do dia. Suponha que você queira criar uma lista de filmes de fantasia que você ainda quer assistir. Basta usar a próxima página em branco, colocar o título e começar a usar. Para encontrar essa lista depois no meio do seu caderno, é só atualizar o sumário. Da mesma maneira, se houver uma outra lista no meio do mês, é só pular aquelas páginas e procurar a próxima em branco e continuar o mês normalmente – e atualizar no sumário as páginas.

Achei bem interessante e resolvi tentar. No meu caso, vou usar pra vida mesmo, vai ter que entrar tudo ali. Inclusive acho interessante pela possibilidade de, com o tópico de notas, simplesmente colocar algo que eu fiz no dia que ache relevante anotar e por aí vai. Eu nunca sei com que frequência abasteço o carro, por exemplo. No entanto, já vi por aí pessoas que acabam usando esse método só para uma área ou para um tipo de atividade.

Enfim, este post aleatório foi apenas para compartilhar essa ideia que achei bastante interessante e aparentemente simples. (Explicar que não é fácil, então recomendo o vídeo do carinha mesmo ali em cima, ele consegue falar melhor.) Alguém de vocês tem algum método de organização ou algum tipo de diário, no qual vocês registram acontecimentos do dia a dia? Eu sou completamente alheia a essas coisas, mas estou me interessando no assunto. Vamos ver até quando.