Resenha: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento | Alice Munro

Fui meio no escuro ao encontro da Alice Munro. Sabia dela apenas que é canadense, escreve contos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2013. Foi assim, meio aleatoriamente, que escolhi Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage como porta de entrada.

Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage - Alice MunroAntes de mais nada, gostaria de falar do quanto essa leitura flui. Quando o livro chegou em casa peguei para dar uma olhada, uma folheada apenas – e acabei não largando. Não digo que é um thriller, mas concordo com a citação na contra-capa que observa que cada conto tem um elemento de suspense, algum mistério: esperamos o desenrolar da história sem poder perguntar “o que vai acontecer?”, porque as possibilidades são tantas que nem mesmo sabemos se nossa pergunta será pertinente. Entendo que isso acontece porque, acompanhando um personagem, vemos como ele é desnudado, escancarado e, sabendo de suas dúvidas, seus desejos e conflitos internos, percebemos o quanto ele mesmo é imprevisível.

Os nove contos do livro têm, com exceção do último, mulheres como personagens principais. Começou aí a minha reação ao livro – reação no sentido mesmo responder àquela leitura, de sentir e pensar sobre aquilo. Vinha de livros escritos por homens que construíam algumas mulheres que me pareciam pouco reais ou pelo menos pouco exploradas, e de obras de mulheres que paravam sua narração no casamento. Munro, pelo contrário, se dedica basicamente aqui a contar de mulheres casadas e/ou estabelecidas em funções domésticas, aquele lugar depois do fim da história. A impressão que eu tive foi a de estar escutando mulheres invisíveis, mudas, e que estão buscando uma maneira de serem enxergadas pelo que elas são, e não ter suas identidades definidas em função de sua relação com o outro.

Ao entrar nos desejos mais profundos dessas mulheres, encontramos personagens falhas, contraditórias, reais. Esses supostos defeitos, no entanto, são colocados de maneira muito sensível (embora também direta) e, entendidos na complexidade de cada personagem, torna-se imposível julgá-los.

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento - Alice Munro***

Essa presença incessante de mulheres me fez pensar muito mais sobre a necessidade de variar leituras. Há um tempo atrás vi algumas pessoas dizendo que não escolhiam livros baseados no gênero do autor, e sim na qualidade da obra (como se uma coisa excluísse a outra). Se aceitamos que as diferentes experiências de vida aparecem na escrita, nos temas e nos tratamento que cada autor imprime em sua obra, por que alguns ainda resistem em entender que o gênero (todos!) faz parte dessa maneira de perceber o mundo?

Enfim, Alice Munro, além de ums escrita hipnotizante na qual nos leva a encarar alguns demônios com o horror da quase naturalidade, me marcou também por me fazer pensar muito mais na mulher na literatura.

***

Título original: Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage
Ano de publicação: 2001
Idioma original: Inglês

Título em português: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento
Ano de publicação: 2013
Editora: Biblioteca Azul/Globo Livros
360 páginas

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5 ideias sobre “Resenha: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento | Alice Munro

  1. Eduarda Sampaio

    Olivia, eu adoro resenhas que expressam o que o leitor sentiu durante a leitura e foi exatamente isso que você fez aqui. Adorei! Me deu vontade de sentir tudo o que você sentiu também. Eu sou o tipo de leitora que se apega a personagens; quanto mais complexos, melhor, então acho que eu adoraria esse livro.
    Beijo!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Olá, Eduarda! Eu acho difícil falar de outras coisas que não as que eu sinto quando leio e no final das contas é o que sei falar mesmo, né? hahaha! Leia a Munro, eu fiquei encantaaaaaaaada. Fiquei pensando demais mesmo na condição de ser mulher e quero ler muito mais da autora. Espero que você também goste!
      Beijos!

      Resposta
  2. Lulu

    Olivia, que resenha fantástica! Assim como a Eduarda, também gosto quando o leitor expressa o que sentiu durante a leitura. Ainda não li nada da Alice Munro, mas só ouço elogios.
    Beijos!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Olá, Lu! Fico muito feliz em saber que tem gente interessada em saber desses devaneios de leitura. Particularmente também gosto das conexões que as pesos vão estabelecendo com coisas aparentemente não relacionadas. E leia a Munro. Eu fiquei impressionada com a escrita dela!
      Besos!

      Resposta

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