Arquivo mensal: maio 2014

Resenha: Maus | Art Spiegelman

Eu confesso que demorei a ler por preguiça. Nós temos muitas histórias do holocausto – ainda bem -, mas não raro elas caem no lado melodramático hollywoodiano. Às vezes eu custo a entender o que exatamente alguns filmes querem realmente dizer sobre a Segunda Guerra Mundial. Foi com esse sentimento, com essa falta de esperança, que fui ler “Maus”.

Maus, de Art SpiegelmanTodos devem saber disso, mas resumindo o plot: “Maus” é um quadrinho (inho mesmo, os quadros são bem pequenos) em preto e branco que narra a vida de um polonês judeu, Vladek Spiegelman, e de sua família e conhecidos durante a Segunda Guerra Mundial na Polônia. A história é narrada pelo próprio Vladek a seu filho – o autor Art Spiegelman – vários anos depois. A esta altura, na virada para a década de 1980, Vladek já vive há décadas em Nova York, casou-se novamente e seu filho, Art, já é um quadrinista estabelecido.

Art se interessa pelas memórias de seu pai, se dispõe a escutá-lo e é de sua própria narração que é reconstruída a história que acompanhamos. Obedecendo à irregularidade da memória, Vladek relembra episódios ordinários, cotidianos. Acompanhamos os anos logo anteriores à guerra enquanto as vidas seguem normalmente: casamento, família, negócios. Aos poucos, tudo aquilo vai sendo destroçado.

Não gosto de contar muito sobre a trama, mas basta relembrar aqui o subtítulo do livro: “história de um sobrevivente”. Foram anos de guerra durante os quais Vladek passa pelo front de batalha, trens, gueto, esconderijos e por fim, Auschwitz. Ao longo desse caminho há fome, humilhação, doença, frio, violência e perdas. Muitas. A força de “Maus” está aqui nessas perdas, nessa degradação humana a tal ponto que se torna realmente impossível reconhecer ali um homem – seja de qual lado for. Afinal de contas, se judeus – e todas as outras minorias perseguidas (não vamos nos esquecer de comunistas, ciganos e pessoas com qualquer deficiência) – eram ratos, haveria humanidade naqueles que infringem o sofrimento? Ou naqueles que fecham os olhos?

“Maus” ajuda muito a pensar também em responsabilidades. Durante a leitura quase não há menção à Hitler ou à alta cúpula cujos nomes sempre aparecem quando se fala se Segunda Guerra. Os algozes estavam na linha, nos campos de concentração, nas guardas nas cidades. Fico pensando nos vários relatos que escutamos por aí: “nós não sabíamos”. Não saber de campos de concentração isenta dos preconceitos, depois transformados em reais crueldades, cometidos contra outros seres humanos?

Encerro dizendo que “Maus” é uma leitura recomendada a todos. Sem exceção. É um relato pessoal (na verdade dois, pois também temos a parte da relação com o filho, Art, que é bem interessante) de até onde o ser humano pode chegar. É também, por isso mesmo, uma lembrança, um chamado. Em tempos de linchamentos e Scheherazades, é bom lembrar onde tais pensamentos já levaram a humanidade.

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Título original: Maus
Ano de publicação: Originalmente publicado em duas partes, em 1986 e 1991.
Idioma original: Inglês

Título em português: Maus
Ano de publicação: 2005
Editora: Companhia das Letras
298 páginas

Bout of Books 10 Read-A-Thon | Balanço

 

Explicação da maratona literária aqui.

Minha primeira maratona literária foi um fracasso. Nem vou dar grandes desculpas, a verdade é que eu não estava muito no ritmo da leitura e fui empurrando o grosso do desafio para o fim de semana – e aí sim, fiquei sem tempo porque de repente, como sempre, aparecem mil compromissos inesperados.

Resumo da meta e resultados (finalizado, em andamento, não iniciado):

Harry Potter e a pedra filosofal, de J.K. Rowling

– Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver

Maus, de Art Spiegelman

– Terra sonâmbula, de Mia Couto

– Os livros da magia, de Neil Gaiman

É verdade que fiquei tão frustrada (mentira, não foi tanto assim, mas deu pra me afetar um pouco) que agora nesta semana até dei um gás. Afinal de contas tem coisas demais que quero ler e que estão me observando da estante, é preciso criar espaços de tempo pra realizar esses desejos literários!

Bom, de qualquer maneira achei interessante a ideia, só uma pena não ter acontecido numa semana tão boa pra mim. Fiquei pensando ainda que não são muito boa em criar metas. Não sei, mudo muito de ideia ao longo do caminho, me distraio com outras coisas. Alguém mais é assim? Por exemplo, eu comecei o “Terra sonâmbula” e, apesar de bom, não estou lá com muita vontade de lê-lo agora. Vejamos que destino dou a ele por enquanto.

 

Resenha: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento | Alice Munro

Fui meio no escuro ao encontro da Alice Munro. Sabia dela apenas que é canadense, escreve contos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura 2013. Foi assim, meio aleatoriamente, que escolhi Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage como porta de entrada.

Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage - Alice MunroAntes de mais nada, gostaria de falar do quanto essa leitura flui. Quando o livro chegou em casa peguei para dar uma olhada, uma folheada apenas – e acabei não largando. Não digo que é um thriller, mas concordo com a citação na contra-capa que observa que cada conto tem um elemento de suspense, algum mistério: esperamos o desenrolar da história sem poder perguntar “o que vai acontecer?”, porque as possibilidades são tantas que nem mesmo sabemos se nossa pergunta será pertinente. Entendo que isso acontece porque, acompanhando um personagem, vemos como ele é desnudado, escancarado e, sabendo de suas dúvidas, seus desejos e conflitos internos, percebemos o quanto ele mesmo é imprevisível.

Os nove contos do livro têm, com exceção do último, mulheres como personagens principais. Começou aí a minha reação ao livro – reação no sentido mesmo responder àquela leitura, de sentir e pensar sobre aquilo. Vinha de livros escritos por homens que construíam algumas mulheres que me pareciam pouco reais ou pelo menos pouco exploradas, e de obras de mulheres que paravam sua narração no casamento. Munro, pelo contrário, se dedica basicamente aqui a contar de mulheres casadas e/ou estabelecidas em funções domésticas, aquele lugar depois do fim da história. A impressão que eu tive foi a de estar escutando mulheres invisíveis, mudas, e que estão buscando uma maneira de serem enxergadas pelo que elas são, e não ter suas identidades definidas em função de sua relação com o outro.

Ao entrar nos desejos mais profundos dessas mulheres, encontramos personagens falhas, contraditórias, reais. Esses supostos defeitos, no entanto, são colocados de maneira muito sensível (embora também direta) e, entendidos na complexidade de cada personagem, torna-se imposível julgá-los.

Ódio, amizade, namoro, amor, casamento - Alice Munro***

Essa presença incessante de mulheres me fez pensar muito mais sobre a necessidade de variar leituras. Há um tempo atrás vi algumas pessoas dizendo que não escolhiam livros baseados no gênero do autor, e sim na qualidade da obra (como se uma coisa excluísse a outra). Se aceitamos que as diferentes experiências de vida aparecem na escrita, nos temas e nos tratamento que cada autor imprime em sua obra, por que alguns ainda resistem em entender que o gênero (todos!) faz parte dessa maneira de perceber o mundo?

Enfim, Alice Munro, além de ums escrita hipnotizante na qual nos leva a encarar alguns demônios com o horror da quase naturalidade, me marcou também por me fazer pensar muito mais na mulher na literatura.

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Título original: Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage
Ano de publicação: 2001
Idioma original: Inglês

Título em português: Ódio, amizade, namoro, amor, casamento
Ano de publicação: 2013
Editora: Biblioteca Azul/Globo Livros
360 páginas

Bout of Books 10 Read-A-Thon

Decidi participar de uma dessas maratonas de leitura que vira e mexe aparecem. A leitura é uma atividade solitária, então deve ser legal essa experiência de ler sabendo que várias outras pessoas estão envolvidas naquilo, mesmo que não estejamos todos compartilhando a mesma leitura. Mas aqui vai a explicação do que é exatamente o Bout of Books Read-A-Thon:

The Bout of Books read-a-thon is organized by Amanda @ On a Book Bender and Kelly @ Reading the Paranormal. It is a week long read-a-thon that begins 12:01am Monday, May 12th and runs through Sunday, May 18th in whatever time zone you are in. Bout of Books is low-pressure, and the only reading competition is between you and your usual number of books read in a week. There are challenges, giveaways, and a grand prize, but all of these are completely optional. For all Bout of Books 10 information and updates, be sure to visit the Bout of Books blog. – From the Bout of Books team

Bout of Books

Ou seja: todo mundo lendo mais do que o normal e/ou de acordo com metas estabelecidas no período de 12 a 18 de maio. Levando em consideração que o resto da vida continua normal (e aliás, o normal no dito período vai ser atípico porque é fim de semestre letivo), resolvi não ser muito ambiciosa e colocar uma meta modesta para mim mesma:

Metas – My Goals

– Terra sonâmbula, de Mia Couto
Esta é a escolha “séria”. Tenho alguns livros do Mia Couto me esperando e pelo que li dele dá para encaixar no desafio por se tratar de uma escrita mais leve apesar de genial.

– Maus, de Art Spiegelman
Livro escolhido para o Desafio do Skoob, que este mês tem por tema biografia.

– Harry Potter and the chamber of secrets, de J.K. Rowling
Como queria há muito tempo reler Harry Potter em inglês, estou optando por colocar algum livro da série como leitura paralela. Acaba sendo a escapatória leve e descompromissada quando estou lendo outro livro mais pesado ou denso. (Update em 11.05: porque não concluí o primeiro livro, estou mudando esta parte do desafio para incluir dois outros que estou lendo no momento e preciso terminar.)

– O livro da magia, de Neil Gaiman
Este é emprestado de uma amiga e tenho que devolver! Também gosto muito do Neil Gaiman e nunca li este.

– Harry Potter and the sorcerer’s stone, de J.K. Rowling
Estou relendo Harry Potter em inglês e já tinha começado este (estou na pagina 90 faltado vinte minutos para o começo da maratona), então pretendo terminá-lo.

– We need to talk about Kevin, de Lionel Shriver
Outro livro que já está sendo lido (estou pela metade agora). O objetivo é terminar este também na maratona. Esta leitura é a escolhida do mês para o “leituras compartilhadas” do pessoal do blog e canal Espanador.

Como se pode notar, tentei colocar leituras mais leves, já que geralmente durante a semana leio mais no fim do dia, quando a mente já está cansada. De qualquer maneira, considerando o tempo limitado que tenho, ainda acho esta uma meta para a qual eu terei que me esforçar para conseguir cumprir, porque afinal de contas é para ser um desafio também.

Se alguém mais quiser participar, é só entrar no site e seguir as instruções. Seria muito legal ter mais pessoas na maratona da próxima semana!

Updates

20 de maio: Acabei não postando atualizações constantes, mas o balanço final pode ser lido aqui.

Feira: Abril de 2014

Descumprindo promessas.

Livros mencionados:

Mudança, de Mo Yan
Só para fumantes, de Julio Ramón Ribeyro
Antologia da literatura fantástica, de Antonio Bioy Casares, Jorge Luis Borges e Silvia Ocampo
Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo
Formas de voltar para casa, de Alejandro Zambra
Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage, de Alice Munro
Harry Potter (box set), de J.K. Rowling

Panorama de leituras: abril de 2014

Um vídeo com os livros lidos no mês de abril de 2014 e o que estou lendo no momento.

Livros mencionados:

Razão e sensibilidade, de Jane Austen (resenha aqui)
Mudança, de Mo Yan (resenha do Milkshakespeare and Company aqui)
Pavor espaciar, de Gustavo Duarte
Rebecca, de Daphne du Maurier (resenha aqui)
Hateship, friendship, courtship, loveship, marriage, de Alice Munro
Precisamos falar sobre Kevin, de Lionel Shriver
Longe da árvore, de Andrew Solomon (resenha da Gisele Eberspächer aqui)
Beloved, de Toni Morrison (resenha da Elli aqui)