Resenha: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen (ou: em defesa de Jane Austen)

Há um tempo atrás decidi começar uma espécie de clube de leituras com pessoas conhecidas. A ideia era, acima de tudo, manter contato com uma amiga querida que agora mora na Itália. Fazendo uma leitura conjunta por mês, continuaríamos participando ativamente da vida uma da outra. Fechamos um mirrado grupo de umas quatro participantes, todas mulheres, e a escolha para o primeiro mês ficou com Persuasão, da Jane Austen. Quando comentei sobre o “clubinho” com alguns colegas, uma conhecida em particular me olhou com cara de desdém e disse que essa era a coisa mais clichê do universo: mulheres lendo Jane Austen! Dá para ter coisa mais degradante para o gênero feminino?!

***

Sense and sensibilityRazão e Sensibilidade conta de duas irmãs, Elinor e Marianne. Elinor, a mais velha, é centrada, contida, tendo uma consciência até terrível de como deve se comportar em sociedade. Marianne, por outro lado, é movida pelas emoções, mais impulsiva, não se deixa amarrar por conveniências. Em meio a essas diferenças entre as duas irmãs (e a mãe, de quem Marianne parece ter herdado seu gênio) permanece o amor fraternal incondicional e o senso de dever para com a família.

Como é comum quando se trata de Jane Austen, a trama gira em torno de problemas financeiros, heranças e os amores (e obstáculos) das duas irmãs. Os problemas da família Dashwood começam quando o pai delas morre e, legalmente não podendo deixar sua propriedade para as filhas ou esposa, pede ao seu filho do casamento anterior – e seu herdeiro – que ajude suas filhas. É claro que ele promete que sim – e é claro que não é isso que ele faz. Essas quatro mulheres (há também uma irmã mais nova) vão então se movendo para lá e para cá, tentando se ajustar com aquilo que têm. E é isso o interessante nesta história: é perceber a esfera restrita na qual a mulher daquela sociedade podia se mover.

***

Depois de Persuasão fiquei sem ler Jane Austen (de quem eu gosto muito) durante algum tempo. Já havia lido Razão e Sensibilidade há uns quase oito anos, em inglês, quando não tinha o hábito, então contava como “meia-leitura”.

Enquanto lia as histórias de Elinor e Marianne fiquei pensando sobre esse lugar restrito da mulher, essa quase jaula. Embora a Jane Austen seja conhecida por escrever sobre esses gentlemen que permanecem nos sonhos da maioria das mulheres ainda hoje (há um verdadeiro culto em torno do Mr. Darcy, e com toda razão!), acho válido que retomemos as outras coisas das quais ela estava falando. Em Razão e Sensibilidade, assim como em Persuasão (dos livros que tenho mais frescos na memória), vemos mulheres esquecidas, jogadas para as margens da sociedade porque já estão chegando aos trinta e não são casadas, não são lindas ou não têm dinheiro suficiente. Tudo o que define as mulheres são essas três características sobre as quais elas mesmas não têm controle.

Os desfechos felizes (tenho minhas dúvidas sobre Razão e Sensibilidade ser exatamente feliz, mas não vou comentar para não dar spoilers) acabam por se sobrepor a tudo o que Jane Austen discute, como se o fato dela ser conhecida por casar seus personagens no final do livro significar o próprio endosso dela de que este é o final perfeito e a resolução de todos os problemas que possa afligir o gênero feminino. Esquece-se das falas que vemos durante todo o livro e que, acredito, pretendem justamente discutir essa posição passiva da mulher naquela sociedade. E é por isso que eu defendo a Jane Austen e não acredito que ler seus livros me torne menos feminista.

***

Título original: Sense and Sensibility
Ano de publicação: 1811
Idioma original: Inglês

Título em português: Razão e Sensibilidade
(Este livro já teve várias edições e atualmente, que eu saiba, é publicado pela Penguin/Companhia, L&PM, Martin Claret e Saraiva, mas deve ter mais por aí.)

Anúncios

10 ideias sobre “Resenha: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen (ou: em defesa de Jane Austen)

  1. lualimaverde

    Concordo demais, Olívia, inclusive sempre argumento parecido quando defendo a Jane Austen. Ela não está entre meus escritores preferidos, mas não a vejo como uma escritora com temas menores, pelo contrário, ela só retratava a realidade das mulheres da época.
    Engraçado é que aconteceu algo parecido comigo, eu fui convidada pra um clube de leitura dos livros da Jane Austen e fui até com um certo preconceito, mas exatamente com Razão e Sensibilidade eu vi o quanto eu estava enganada e até hoje acho que este é o meu preferido dela, embora eu ainda tenha 2 livros dela por ler. =)
    Beijo!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Oi, Lua! Pois é, não sei se temos preconceito com livros com finais felizes, como se isso tornasse a obra menor. E a Austen ainda é muito interessante para perceber costumes da época dentre certa população do countryside inglês. Enfim, as pessoas podem até não achar que os livros dela sao a nata da nata da literatura, mas daí a julgar que são anti-feministas já é um longo caminho…
      Quais faltam pra você ler? Pra mim ainda faltam Northanger Abbey e Mansfield Park, queria conseguir fechar neste ano, mas vamos ver…
      Besos!

      Resposta
  2. Lulu

    Adorei o post!
    A quem repita o discurso de que as obras de Jane Austen são livros de mulherzinha, água com açúcar e algodão doce. Tadinhos! Mal sabem ou não percebem que a autora escrevia sobre a condição da mulher em sua época e do cotidiano da sociedade inglesa. Enfim, espero que o clichê se torne mais clichê! 😉
    Beijos, Olivia!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Olá, Lu! Pois é, há muito preconceito literário, isso a gente sabe e, ainda bem, de vez em quando aparece em discussões pelos blogs e vlogs literários. Quanto à Jane, parece que o fato de nao ser uma leitura mais pesada, difícil ou introspectiva, mas engraçada e leve, faz dela algo menor. Porque né, parece que pra ser bom o livro não pode JAMAIS deixar o leitor feliz. E é como você disse, ela pinta a sociedade inglesa do campo pegando o cotidiano, situações ordinárias. Enfim.
      Obrigada pelo comentário! Besos!!!

      Resposta
  3. Pingback: Leituras da semana #10 | #FridayReads |

  4. Eduarda Sampaio

    Interpretar um livro fora do contexto em que ele foi escrito não faz o menor sentido. É impossível que Jane Austen, que viveu na Inglaterra do século XIX, fosse uma Virginia Woolf, mas ainda assim elas têm temas em comum. Jane Austen é feminista com as limitações do pensamento da época. Como você colocou muito bem na sua resenha, Austen fala da prisão feminina de não ter independência financeira, de depender do casamento. Em Orgulho e Preconceito, Charlotte, por ter 27 anos, não vê outra opção e casa com o horroroso Collins. E Virginia Woolf, no século XX, fala exatamente da mesma coisa em “Um Quarto só seu”.
    Também não entendo porque um livro focado em intrigas amorosas é necessariamente inferior em temática. Tenho medo dessa vertente do movimento feminista que afasta as mulheres de tudo o que é considerado “feminino”.
    Cheguei aqui por causa da Juliana Brina e o blog já está no meu feed!
    Beijo!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Oi, Eduarda! Concordo plenamente, é exatamente isso que você colocou tão bem: é difícil esperar da Jane Austen que ela fale mesmo contra o casamento, sendo que até hoje ele é tido como o rumo “natural” da vida. Mas ela pelo menos fala do casamento por amor, o que também é tema válido, né? Mas bom…
      Obrigada pela visita, leitura e comentário! Seu blog e canal também já estão favoritados. Aliás, adorei o título!
      Besos!

      Resposta
  5. Pingback: Panorama de leituras: abril de 2014 | Biblioconto

  6. Lilian

    Menina, agora fiquei curiosa: quem fez esse comentário, heim? Me conta!
    (Lilian sempre fazendo comentários pouco pertinentes, só pq curte a zuêra)

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s