Arquivo mensal: abril 2014

Resenha: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen (ou: em defesa de Jane Austen)

Há um tempo atrás decidi começar uma espécie de clube de leituras com pessoas conhecidas. A ideia era, acima de tudo, manter contato com uma amiga querida que agora mora na Itália. Fazendo uma leitura conjunta por mês, continuaríamos participando ativamente da vida uma da outra. Fechamos um mirrado grupo de umas quatro participantes, todas mulheres, e a escolha para o primeiro mês ficou com Persuasão, da Jane Austen. Quando comentei sobre o “clubinho” com alguns colegas, uma conhecida em particular me olhou com cara de desdém e disse que essa era a coisa mais clichê do universo: mulheres lendo Jane Austen! Dá para ter coisa mais degradante para o gênero feminino?!

***

Sense and sensibilityRazão e Sensibilidade conta de duas irmãs, Elinor e Marianne. Elinor, a mais velha, é centrada, contida, tendo uma consciência até terrível de como deve se comportar em sociedade. Marianne, por outro lado, é movida pelas emoções, mais impulsiva, não se deixa amarrar por conveniências. Em meio a essas diferenças entre as duas irmãs (e a mãe, de quem Marianne parece ter herdado seu gênio) permanece o amor fraternal incondicional e o senso de dever para com a família.

Como é comum quando se trata de Jane Austen, a trama gira em torno de problemas financeiros, heranças e os amores (e obstáculos) das duas irmãs. Os problemas da família Dashwood começam quando o pai delas morre e, legalmente não podendo deixar sua propriedade para as filhas ou esposa, pede ao seu filho do casamento anterior – e seu herdeiro – que ajude suas filhas. É claro que ele promete que sim – e é claro que não é isso que ele faz. Essas quatro mulheres (há também uma irmã mais nova) vão então se movendo para lá e para cá, tentando se ajustar com aquilo que têm. E é isso o interessante nesta história: é perceber a esfera restrita na qual a mulher daquela sociedade podia se mover.

***

Depois de Persuasão fiquei sem ler Jane Austen (de quem eu gosto muito) durante algum tempo. Já havia lido Razão e Sensibilidade há uns quase oito anos, em inglês, quando não tinha o hábito, então contava como “meia-leitura”.

Enquanto lia as histórias de Elinor e Marianne fiquei pensando sobre esse lugar restrito da mulher, essa quase jaula. Embora a Jane Austen seja conhecida por escrever sobre esses gentlemen que permanecem nos sonhos da maioria das mulheres ainda hoje (há um verdadeiro culto em torno do Mr. Darcy, e com toda razão!), acho válido que retomemos as outras coisas das quais ela estava falando. Em Razão e Sensibilidade, assim como em Persuasão (dos livros que tenho mais frescos na memória), vemos mulheres esquecidas, jogadas para as margens da sociedade porque já estão chegando aos trinta e não são casadas, não são lindas ou não têm dinheiro suficiente. Tudo o que define as mulheres são essas três características sobre as quais elas mesmas não têm controle.

Os desfechos felizes (tenho minhas dúvidas sobre Razão e Sensibilidade ser exatamente feliz, mas não vou comentar para não dar spoilers) acabam por se sobrepor a tudo o que Jane Austen discute, como se o fato dela ser conhecida por casar seus personagens no final do livro significar o próprio endosso dela de que este é o final perfeito e a resolução de todos os problemas que possa afligir o gênero feminino. Esquece-se das falas que vemos durante todo o livro e que, acredito, pretendem justamente discutir essa posição passiva da mulher naquela sociedade. E é por isso que eu defendo a Jane Austen e não acredito que ler seus livros me torne menos feminista.

***

Título original: Sense and Sensibility
Ano de publicação: 1811
Idioma original: Inglês

Título em português: Razão e Sensibilidade
(Este livro já teve várias edições e atualmente, que eu saiba, é publicado pela Penguin/Companhia, L&PM, Martin Claret e Saraiva, mas deve ter mais por aí.)

Vídeo: Desafio Literário do Skoob 2014 – 1º quadrimestre

Para fazer uma mini-restrospectiva, resolvi gravar um vídeo contando do Desafio Literário do Skoob 2014, as leituras feitas nos primeiros quatro meses e temas e perspectivas até o fim do ano. Sugestões são aceitas de coração! =)

Panorama em leituras: março de 2014

Passando da metade do mês de abril e passando muito da hora, aqui vai o post com minhas leituras do mês de março.

Sandman Vol.1Sandman, Vol.1: prelúdios e noturnos, de Neil Gaiman
The Sandman, Vol.1: Preludes and Nocturnes

Na verdade esta foi uma releitura. Já tinha lido este volume há alguns anos, porém em português. Sandman é simplesmente genial, não tenho mais o que falar sobre. Foi a segunda obra do Neil Gaiman que li (comecei com Stardust) e realmente me abriu mais possibilidades ainda para o que quadrinhos poderiam ser.

Azul é a cor mais quenteAzul é a cor mais quente, de Julie Maroh
Le bleu est un coleur chaude

Confesso que fui com muita sede ao pote neste aqui. Não que não tenha gostado, mas talvez esperasse demais (demais do tipo “mudou minha vida para sempre!”), o que nunca é uma boa coisa, nem para livros nem para qualquer coisa. É uma história muito bonita, contada de uma maneira delicada, embora de maneira alguma leve.

O passado, de Alan PaulsO passado, de Alan Pauls
El pasado

Depois de um tempo me enrolando com esse livro consegui finalizar a leitura no começo de março. Já tem uma resenha aqui. Ainda fico em cima do muro com esse livro, não sei qual é meu sentimento em relação a ele, mas é definitivamente uma história pesada de obsessão, amor doentio, um amor na verdade que não sabemos se já chegou na loucura.

Os_gatosOs gatos, de Patricia Highsmith

Nunca havia lido nada da Patricia Highsmith e fiquei interessada. Na verdade esse foi um dos livrinhos que passou na frente, que vi na prateleira da livraria e tive que começar a ler imediatamente. Para quem não sabe, eu adoro gatos, já morei com alguns e neste momento tenho a minha gatinha Margot deitada, preguiçosa toda vida, na minha cama. Os gatos reúne contos, poemas e desenhos da Patricia Highsmith sobre gatos. Gostei especialmente de um conto que tem o próprio gato como protagonista, fico olhando aqui para a Margotzinha e imaginando o que ela deve achar da vida.

O nome da rosaO nome da rosa, de Umberto Eco
Il nome della rosa

A grande leitura do mês e sem dúvida alguma da vida. Demorei bastante para finalmente decidir pegar esse livro e seguir adiante com a leitura, mas acredito que li no momento certo. A resenha está aqui. Sem sombra de dúvidas esta é A recomendação dentre todos os livros lidos em março.

E é isso! O mês de abril já está bem avançado e infelizmente não parece que vai ter tantas leituras assim. Infelizmente outras atividades entram no meio e as obrigações sempre ganham da diversão…