Café, pão de queijo e… O nome da rosa

O bem de um livro está em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por as vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro traz signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo.” (p. 448-9)

Há mais ou menos dez anos esse livro habita minha estante, sendo jogado pra lá e pra cá, de vez em quando passando na frente na pilha de leituras para depois ser empurrado para o final. Já tinha começado a ler “O nome da rosa” umas três vezes, sempre parando na mesma parte (uma descrição bastante detalhada), desanimada pelo ritmo do livro.

Como parte do Desafio Skoob, resolvi escolher este título para o mês do mistério, por sugestão que encontrei no próprio fórum. Sábia decisão.

O filme eu já conhecia, embora não me lembrasse de muitos detalhes, mas o fato de saber da chave do mistério (pelo menos em partes) absolutamente não tira o brilho desta obra.

O nome da rosaO livro é narrado por Adso de Melk, um monge beneditino que já em idade avançada relembra os acontecimentos de sua juventude, quando foi, durante um período, aprendiz do franciscano Guilherme de Baskerville. O ano é 1327. Ao visistar um mosteiro italiano na missão de preparar um encontro entre grupos conflitantes dentro da Igreja Católica, Adso e Guilherme acabam se envolvendo numa série de acontecimentos misteriosos.

Na manhã de sua chegada é descoberto o cadáver de um dos monges. O abade confia a Guilherme a missão de descobrir o que poderia ter acontecido: aquilo fora um assassinato ou suicídio? (Ambos, claro, problemáticos para o mosteiro.) A sequência dos acontecimentos é surpreendente embora a tragédia seja anunciada por Adso desde o início. O que torna a trama tão intricada são as diversas discussões, intrigas e principalmente segredos entre os monges.

(Devo dizer que Guilherme de Baskerville é um homem genial e é com prazer que o acompanhamos na resolução do mistério. Por incrível que pareça, embora o livro trate de um assunto tão profundo e tenha como cenário um ambiente a primeira vista tão austero, Guilherme me fez dar umas boas risadas!)

No entanto, mais do que uma história de mistério, Umberto Eco constrói em “O nome da rosa” um cenário incrível de uma época e um domínio, tendo como centro da dicussão a questão do conhecimento. Definitivamente cai por terra a ideia do período medieval como um de trevas: todo o tempo vemos jogos políticos na busca pelo poder. Mais ainda, os debates filosóficos e teológicos são acirrados, revelando um certo trânsito de conhecimento e algum nível de trocas intelectuais que normalmente tendemos a pensar como fora do contexto da Idade Média.

Existem N maneiras de ler este livro, me parece, e eu poderia escrever extensamente sobre cada um dos que considerei como grandes temas a serem pensados a partir desta leitura. No entanto, me limito nesta resenha a enfatizar o quão genial este livro é por sua discussão em torno do conhecimento – deve estar ao alcance de todos? Quem tem responsabilidade sobre ele? Quem é guardião dos livros e das bibliotecas? Deve haver a figura do guardião? Quem valida conhecimentos? Quem faz seleções e interpretações? Deve haver essa seleção, essa “filtragem”? – e da própria Igreja Católica naquele momento – dividida, brigando por poder e legitimação, palco de embates em torno de ressignificações sobre a vida de Jesus e a postura dos representantes do poder divino na Terra.

“E então uma biblioteca não é um lugar instrumento para divulgar a verdade, mas para retardar sua aparição?” (p. 330)

Enfim, este é um livro que não acaba. Pelo menos em mim, ele continua repercutindo, fazendo refletir, pensar sobre as ciências, o saber, mas também, de maneira mais modesta, sobre mim mesma, tanto como leitora como quanto alguém que pode propagar um conhecimento ou informação, como mediadora. Definitivamente um llivro que me deixou inquieta, e por isso mesmo é um dos melhores que já li na vida

Deus criou os monstros também. Também te criou. E quer que se fale de tudo.” (p. 537)

Título original: Il nome della rosa
Ano de publicação: 1980
Idioma original: Italiano

Título em português: O nome da rosa
Ano de publicação: 1986
Editora: Record/Altaya
562 p.
(Dados da edição que li. Este livro foi editado inúmeras vezes no Brasil, inclusive em edições mais completas que a minha, que nem mesmo contava com notas.)

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8 ideias sobre “Café, pão de queijo e… O nome da rosa

  1. lualimaverde

    Li há muito tempo, nessa mesma edição, e jurava que tinha esse livro, mas vi aqui que não, preciso depois adquirir outro exemplar, pois quero muito reler. Inclusive estou adquirindo alguns livros dele (esperando chegar de troca no skoob) e quero ler alguma coisa dele em breve. Beijinho, Olívia! =)

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    1. Olivia Autor do post

      Olá, Lua! pois é, eu fiquei tão empolgada que saí correndo pro Estante Virtual comprar outros livros dele, mas me segurei porque já estou com muita coisa aqui nao lida. Mas definitivamente fiquei com muuuuita vontade de ler mais Umberto Eco!!
      Besos!!!

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  2. Michelle

    Aqui em casa também esse livro vive entrando na lista de leitura, só para depois voltar cabisbaixo para o fim da pilha. Era uma das minhas opções para o desafio mas, como Umberto Eco faz é o autor de junho de outro projeto de leitura (o Volta ao Mundo em 12 Livros), empurrei o coitado para daqui a alguns meses. Mas este ano vai!
    beijo!

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    1. Olivia Autor do post

      Michelle, espero que você leia este ano mesmo. Ô livro sensacional!!!!!!! Parece que vai ser lento e difícil no começo, mas flui que é uma delícia…!

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  3. Aline Aimée (@alineaimee)

    Ótima resenha!
    Esse livro também ecoou em mim (juro que não quis fazer piada com o nome do autor!), tanto que sonhei com ele, rs. Ele rendeu bons bate-papos com meu namorado. Achei delicioso e estou a fim de pegar mais coisas dele pra ler. Obrigada pela visita! 🙂

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    1. Olivia Autor do post

      Pois é, imagino que para quem entende de história, literatura, filosofia medieval, a leitura desse livro deve ser mais mágica ainda. Agora, confesso que nao fui uma leitora como você e tentei entender o que dava do latim, mas não joguei no tradutor, dava preguiça e parecia que eu ia interromper a leitura. =/ Fiquei curiosíssima agora para ler O Pêndulo de Foucault, podíamos tentar uma leitura conjunta, hein?
      Besos e obrigada por passar por aqui! =)

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    1. Olivia Autor do post

      Oi, Jeniffer! Vi o filme, sim. Um dos poucos que não fica atrás do livro, apesar de, claro, o livro trazer discussões bem mais profundas. Quero muito ler mais do Umberto Eco!

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