Café, pão de queijo e… O Passado

É difícil escrever sobre esse livro, falar sobre ele; às vezes não sei o que entendi. Fiquei pensando no “sobre”: sobre o que é o livro? Do que trata essa história? No final das contas, “O Passado” é sobre o amor, sim, mas um amor obssessivo, doentio, que passa longe do amor romântico.

O passado, de Alan PaulsO livro começa já com o término do casal milenar Rímini e Sofía. Digo milenar porque é assim que parece que eles se entendem e que o mundo entende eles. Ficaram juntos durante doze anos, mas o choque que o fim da relação causa não só neles mesmos, mas em todos que os rodeiam, dá a entender que é como se aquilo fosse antinatural – o fim de uma era.

Embora a narrativa siga uma linha mais ou menos cronológica, em vários momentos somos transportados ao passado através da memória de Rímini (que é quem acompanhamos), resgatando momentos nos quais ele e Sofía ainda estavam juntos, episódios específicos e aparentemente supérfluos, mas que de alguma maneira se conectam com o presente, com algo normalmente imperceptível que só Rímini nota e o faz viajar em suas lembranças e sensações. Aliás, me chamou a atenção especialmente esse jeito de ir e vir: Alan Pauls utiliza frases super longas, cheias de apostos, de parêntenses, extrapola uma observação para depois voltar… E começa tudo de novo. Tenho que admitir que por vezes isso me cansou (existem páginas e páginas, por exemplo, de uma história totalmente marginal), mas por outro lado somos assim. Quero dizer: não pensamos linearmente (pelo menos eu, não!), muitas vezes começamos em um assunto para, escorregando para cá e para lá, cair em outras histórias, lembramos de um episódio, vamos viajando. Nesses zigue-zagues acabamos conhecendo mais de Rímini, da sua maneira de relacionar as coisas, das suas memórias que não são necessariamente sobre os grandes episódios da sua vida, mas do pequeno, do que a outros olhos pode ser insignificante, mas que são pilares do que ele é.

Rímini tem outros relacionamentos, mas durante todo o livro Sofía é constante presença, seja nas memórias, seja em suas óbvias memórias, acasos impossíveis, encontros aleatórios ou inevitáveis. Suas vidas já foram entrelaçadas demais e parece que nenhum dos dois quer largar daquilo.

Outro dia li este artigo no Ñ, do Clarín, sobre um estilo literário que poderia ser considerado para homens, e lá está Alan Pauls. Apesar de tudo o que se possa dizer contra isso, entendo em certas medidas, pois realmente em vários momentos foi difícil para mim entender algumas das mulheres em “O Passado”, especialmente Sofía. Claro, eu só posso falar da minha própria experiência como mulher, mas algumas coisas me pareceram estranhas e cheguei mesmo a pensar “Mas eu não conheço nenhuma mulher que faria/diria isso!”. Mas também pode ser o caso de estarem todos esses personagens sob o efeito do vírus do amor, alterados, transtornados, meio loucos e desesperados.

No final das contas, “O Passado” é uma quebra muito grande em relação às maneiras de amar com as quais estamos acostumados a ver em livros, filmes, Jane Austen e Disney. (Sem críticas! Eu adoro Austen e cresci com Disney!) É cru, direto ao ponto quanto ao sexo, mas não necessariamente quanto aos sentimentos. As pessoas são desorganizadas, bagunçadas, obssessivas, e é dessas ideias e sobretudo da ideia de que o amor é doente e doentio, que Alan Pauls constrói essa saga por Buenos Aires, na qual dois ex namorados não conseguem deixar de estar presentes nas vidas um do outro.

Título original: El pasado
Ano de publicação: 2003
Idioma original: Espanhol

Título em português: O passado
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
480 páginas

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2 ideias sobre “Café, pão de queijo e… O Passado

  1. Michelle

    Acho que vou gostar desse livro, já que ele mostra uma forma mais real de amor. Como você disse, as pessoas são desorganizadas, bagunçadas e obsessivas e acho legal quanto isso se reflete em uma história.
    Botei na minha lista de leitura (junto com o filme que ainda não vi).
    beijo!

    Resposta
    1. Olivia Autor do post

      Olá, Michelle! Pois é, é um livro bem legal. A minha resenha ficou meio incompleta, teve coisas que eu gostaria de ter colocado e acabei esquecendo, principalmente quanto aos problemas que eu tive. A leitura pra mim tinha fases, com pedaços no qual se desenvolvia de maneira muuuuito lenta, tanto que demorei horrores pra ler. Acho que faltaram mais algumas coisas sobre o personagem principal pra deixar claro também que não é uma história de amor bonita, vai dando umas sensações de repulsa várias vezes. Ah, mas enfim, tomara q vc leia logo porque agora estou querendo conversar mesmo sobre o livro. =)
      Besos!

      PS: tb nao vi o filme, devo ver neste fim de semana.

      Resposta

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