Arquivo mensal: março 2014

Feira: Março de 2014

Para as aquisições de livros em março de 2014, resolvi fazer um videozito.

Feira de livros da UFMG
– O beijo de Lamourette, de Robert Darnton
– O espetáculo das raças, Lilia Moritz Schwarcz
– O sabor do arquivo, Arlette Farge
– Cibercultura, Pierre Levy
– Por que ler os clássicos?, de Italo Calvino
– O barão nas árvores, de Italo Calvino
– As cidades invisíveis, de Italo Calvino
– Cada homem é ma raça, de Mia Couto
– E se Obama fosse africano?, de Mia Couto
– Terra sonâmbula, de Mia Couto
– Habibi, de Craig Thompson

Livraria Travessa
– Pavor espaciarde Gustavo Duarte

Livraria Cultura
– Little women, de Louisa May Alcott
– Sense and sensibility, de Jane Austen

Estante Virtual
– O obsceno pássaro da noite, de José Donoso

Café, pão de queijo e… O nome da rosa

O bem de um livro está em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por as vez falam das coisas. Sem um olho que o leia, um livro traz signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo.” (p. 448-9)

Há mais ou menos dez anos esse livro habita minha estante, sendo jogado pra lá e pra cá, de vez em quando passando na frente na pilha de leituras para depois ser empurrado para o final. Já tinha começado a ler “O nome da rosa” umas três vezes, sempre parando na mesma parte (uma descrição bastante detalhada), desanimada pelo ritmo do livro.

Como parte do Desafio Skoob, resolvi escolher este título para o mês do mistério, por sugestão que encontrei no próprio fórum. Sábia decisão.

O filme eu já conhecia, embora não me lembrasse de muitos detalhes, mas o fato de saber da chave do mistério (pelo menos em partes) absolutamente não tira o brilho desta obra.

O nome da rosaO livro é narrado por Adso de Melk, um monge beneditino que já em idade avançada relembra os acontecimentos de sua juventude, quando foi, durante um período, aprendiz do franciscano Guilherme de Baskerville. O ano é 1327. Ao visistar um mosteiro italiano na missão de preparar um encontro entre grupos conflitantes dentro da Igreja Católica, Adso e Guilherme acabam se envolvendo numa série de acontecimentos misteriosos.

Na manhã de sua chegada é descoberto o cadáver de um dos monges. O abade confia a Guilherme a missão de descobrir o que poderia ter acontecido: aquilo fora um assassinato ou suicídio? (Ambos, claro, problemáticos para o mosteiro.) A sequência dos acontecimentos é surpreendente embora a tragédia seja anunciada por Adso desde o início. O que torna a trama tão intricada são as diversas discussões, intrigas e principalmente segredos entre os monges.

(Devo dizer que Guilherme de Baskerville é um homem genial e é com prazer que o acompanhamos na resolução do mistério. Por incrível que pareça, embora o livro trate de um assunto tão profundo e tenha como cenário um ambiente a primeira vista tão austero, Guilherme me fez dar umas boas risadas!)

No entanto, mais do que uma história de mistério, Umberto Eco constrói em “O nome da rosa” um cenário incrível de uma época e um domínio, tendo como centro da dicussão a questão do conhecimento. Definitivamente cai por terra a ideia do período medieval como um de trevas: todo o tempo vemos jogos políticos na busca pelo poder. Mais ainda, os debates filosóficos e teológicos são acirrados, revelando um certo trânsito de conhecimento e algum nível de trocas intelectuais que normalmente tendemos a pensar como fora do contexto da Idade Média.

Existem N maneiras de ler este livro, me parece, e eu poderia escrever extensamente sobre cada um dos que considerei como grandes temas a serem pensados a partir desta leitura. No entanto, me limito nesta resenha a enfatizar o quão genial este livro é por sua discussão em torno do conhecimento – deve estar ao alcance de todos? Quem tem responsabilidade sobre ele? Quem é guardião dos livros e das bibliotecas? Deve haver a figura do guardião? Quem valida conhecimentos? Quem faz seleções e interpretações? Deve haver essa seleção, essa “filtragem”? – e da própria Igreja Católica naquele momento – dividida, brigando por poder e legitimação, palco de embates em torno de ressignificações sobre a vida de Jesus e a postura dos representantes do poder divino na Terra.

“E então uma biblioteca não é um lugar instrumento para divulgar a verdade, mas para retardar sua aparição?” (p. 330)

Enfim, este é um livro que não acaba. Pelo menos em mim, ele continua repercutindo, fazendo refletir, pensar sobre as ciências, o saber, mas também, de maneira mais modesta, sobre mim mesma, tanto como leitora como quanto alguém que pode propagar um conhecimento ou informação, como mediadora. Definitivamente um llivro que me deixou inquieta, e por isso mesmo é um dos melhores que já li na vida

Deus criou os monstros também. Também te criou. E quer que se fale de tudo.” (p. 537)

Título original: Il nome della rosa
Ano de publicação: 1980
Idioma original: Italiano

Título em português: O nome da rosa
Ano de publicação: 1986
Editora: Record/Altaya
562 p.
(Dados da edição que li. Este livro foi editado inúmeras vezes no Brasil, inclusive em edições mais completas que a minha, que nem mesmo contava com notas.)

Vídeo: TAG Trinca de leitura

Fui taggeada pelos meninos ultra simpáticos do blog Incriativos para responder às perguntas criadas pelo pessoal dos Espanadores.

Perguntas:
1 – Quais autores/obras se envergonha de ainda não ter lido? Ou ainda não leu direito?
2 – Quais autores/obras “destoam” sua biblioteca de leituras?
3 – Quais autores/obras dá um trabalho hercúleo não gostar?

Café, pão de queijo e… O Passado

É difícil escrever sobre esse livro, falar sobre ele; às vezes não sei o que entendi. Fiquei pensando no “sobre”: sobre o que é o livro? Do que trata essa história? No final das contas, “O Passado” é sobre o amor, sim, mas um amor obssessivo, doentio, que passa longe do amor romântico.

O passado, de Alan PaulsO livro começa já com o término do casal milenar Rímini e Sofía. Digo milenar porque é assim que parece que eles se entendem e que o mundo entende eles. Ficaram juntos durante doze anos, mas o choque que o fim da relação causa não só neles mesmos, mas em todos que os rodeiam, dá a entender que é como se aquilo fosse antinatural – o fim de uma era.

Embora a narrativa siga uma linha mais ou menos cronológica, em vários momentos somos transportados ao passado através da memória de Rímini (que é quem acompanhamos), resgatando momentos nos quais ele e Sofía ainda estavam juntos, episódios específicos e aparentemente supérfluos, mas que de alguma maneira se conectam com o presente, com algo normalmente imperceptível que só Rímini nota e o faz viajar em suas lembranças e sensações. Aliás, me chamou a atenção especialmente esse jeito de ir e vir: Alan Pauls utiliza frases super longas, cheias de apostos, de parêntenses, extrapola uma observação para depois voltar… E começa tudo de novo. Tenho que admitir que por vezes isso me cansou (existem páginas e páginas, por exemplo, de uma história totalmente marginal), mas por outro lado somos assim. Quero dizer: não pensamos linearmente (pelo menos eu, não!), muitas vezes começamos em um assunto para, escorregando para cá e para lá, cair em outras histórias, lembramos de um episódio, vamos viajando. Nesses zigue-zagues acabamos conhecendo mais de Rímini, da sua maneira de relacionar as coisas, das suas memórias que não são necessariamente sobre os grandes episódios da sua vida, mas do pequeno, do que a outros olhos pode ser insignificante, mas que são pilares do que ele é.

Rímini tem outros relacionamentos, mas durante todo o livro Sofía é constante presença, seja nas memórias, seja em suas óbvias memórias, acasos impossíveis, encontros aleatórios ou inevitáveis. Suas vidas já foram entrelaçadas demais e parece que nenhum dos dois quer largar daquilo.

Outro dia li este artigo no Ñ, do Clarín, sobre um estilo literário que poderia ser considerado para homens, e lá está Alan Pauls. Apesar de tudo o que se possa dizer contra isso, entendo em certas medidas, pois realmente em vários momentos foi difícil para mim entender algumas das mulheres em “O Passado”, especialmente Sofía. Claro, eu só posso falar da minha própria experiência como mulher, mas algumas coisas me pareceram estranhas e cheguei mesmo a pensar “Mas eu não conheço nenhuma mulher que faria/diria isso!”. Mas também pode ser o caso de estarem todos esses personagens sob o efeito do vírus do amor, alterados, transtornados, meio loucos e desesperados.

No final das contas, “O Passado” é uma quebra muito grande em relação às maneiras de amar com as quais estamos acostumados a ver em livros, filmes, Jane Austen e Disney. (Sem críticas! Eu adoro Austen e cresci com Disney!) É cru, direto ao ponto quanto ao sexo, mas não necessariamente quanto aos sentimentos. As pessoas são desorganizadas, bagunçadas, obssessivas, e é dessas ideias e sobretudo da ideia de que o amor é doente e doentio, que Alan Pauls constrói essa saga por Buenos Aires, na qual dois ex namorados não conseguem deixar de estar presentes nas vidas um do outro.

Título original: El pasado
Ano de publicação: 2003
Idioma original: Espanhol

Título em português: O passado
Ano de publicação: 2007
Editora: Cosac Naify
480 páginas

Vídeo: TAG Minha história de leitura

Prazer em conhecer vocês! Bom, na verdade eu já conhecia um bocado de gente, o resto é que nunca tinha visto minha cara – que agora está aí, vergonhosamente se colocando na internet.

Relutei demais em fazer um vídeo, por pura vergonha mesmo (o que dá para notar), mas no final das contas sou faladeira demais, portanto a vontade de tagarelar, mesmo que seja para uma lente, fala mais alto.

Eu queria já há algum tempo falar sobre a minha história de leitura, mesmo porque acho que diz muito sobre quem eu sou hoje e é sempre bom olhar pra trás e reorganizar as ideias. No entanto, era meio difícil escrever (e a preguiça?), então escolhi esse tema para fazer um vídeo. =)

Feira: Fevereiro de 2014

Não gosto das lamentações sobre excessos de compras de livros, puramente porque quase todo mundo faz aquela reclamação pelas metades, do tipo “me sinto culpada, mas na verdade não”. É o que acontece comigo. O momento de arrependimento real vem quando olho pra minha conta, porque eu voltei a ser estagiária (o que foi ótimo para minha vida, mas para os dinheiros…), mas vira e mexe esqueço disso.

Enfim, sem mais delongas, os novinhos:

 

Coração das Trevas, Rebecca, O Sol é Para Todos

Rebecca, Heart Of Darkness, To Kill a Mockingbird

The Book Depository

Heart of Darkness (Coração das Trevas), de Joseph Conrad
Sempre colocava esse no carrinho e nunca levava. Agora foi.
Rebecca, de Daphne Du Maurier
Fiquei empolgadíssima depois de ver a vídeo resenha da Lesley, do WordsOfaReader.
To Kill a Mockingbird (O Sol é Para Todos), de Harper Lee
O Videl, do Ratos Letrados, me convenceu. Também tinha lido Ratos e Homens por indicação dele e gostado muito, então estou confiando cada vez mais nas indicações.

To Kill a Mockingbird já ganhou resenha aqui. Os outros andam aqui me olhando e aguardando ansiosamente a vez de serem lidos – o que espero que seja logo. Alguém aí já leu algum desses?