Café, pão de queijo e… Coração (Edmondo de Amicis)

(Esse título está meio canibal, meio Rainha Má da Branca de Neve, mas deu pra entender, né?)

Nessas passeadas por livrarias, físicas e virtuais, vira e mexe nos deparamos com livros que nos aparecem “sem história”: sem dicas, recomendações ou qualquer “ouvir falar”. Foi assim com “Coração”, que me ganhou por quatro motivos: a) por parecer ser uma literatura infanto-juvenil bem bonitinha; b) por ter sido um dos livros mais vendidos no Brasil entre as décadas de 1920 e 40; c) por sua aparente relevância para o meio intelectual; e d) por nada mais, nada menos que a própria capa (que não muda de cor – infelizmente – mas está disponível em três tons pastéis).

Coração (Edmondo de Amicis)

Coração” (Cuore) trata do ano letivo de Enrico, um italianinho de 11 anos que conta sobre seus professores, colegas de classe que se tornam amigos ao longo do livro, das diferentes famílias e origens sociais, da Itália unificada. Em forma de diário, o menino dia após dia narra nobres histórias com grandes lições de moral – e é exatamente aí que mora o problema.

Acredito que “Coração” deva ser lido como pertencendo ao seu contexto histórico, e é preciso ter isso sempre em mente. Há quem goste e não veja problema nesses relatos que evocam o amor à pátria, o culto ao soldado anônimo, aquela imagem idílica do professor e da escola. Quem gosta deste tipo de história certamente irá se deliciar com esta leitura. Eu, no entanto, tendo a enxergar o livro de Edmondo de Amicis como parte de um movimento de unificação italiana que não terminou nas guerras de 1860/61, mas que seguiu por muito tempo depois, na tentativa de “criar” uma identidade nacional que superasse as identidades regionais.

De Amicis se baseia, então, em três pontos: a escola, a família e o exército. São estas as três instituições que fundam a nação. Na escola, uma variedade de alunos se encontram no mesmo espaço, momentaneamente esquecidos das diferenças sociais que os separam: filhos de advogados, de lenhadores, de ex-presidiários, de comerciantes etc., convivem em paz e harmonia e recebem as mesmas lições, são tratados igualmente. Com a família são aprendidas as grandes lições de moral, de respeito. No entanto, a família está sempre abaixo da nação, a considerada “grande família”, onde todos são irmãos. Assim, o exército e o corpo de militares assume um papel central para a definição da Itália.

São, aliás, vários os momentos em que são narradas histórias na escola sobre campanhas militares, uma grande batalha ou um episódio no qual um simples soldado ou mesmo um camponês desempenham papéis heróicos nos esforços de guerra.

O autor até chega a tocar em algumas diferenças (algo raro quando se quer construir a unidade), não deixando passar desapercebido o fato de existirem várias classes sociais no mesmo espaço, mas ainda assim o faz somente para tentar despertar o sentimento de empatia. Embora incentive a compaixão, nunca se pensa o por que da situação.

Me chamaram a atenção dois pontos: em nenhum momento a religião é mencionada. Pensando num país com forte presença do catolicismo, é bastante curioso e me faz pensar na situação política italiana como realmente se contrapondo ao poder da Igreja. Outra questão interessante foi a de um conto (a cada mês o professor da turma dá um conto mensal, que nos é relatado) sobre um menino que vai à Buenos Aires procurar sua mãe que emigrou para a Argentina (esta história resultou naquele anime bem bonitinho, Marco), escancarando um problema social da Itália. Mais uma vez: não se deixa de falar na pobreza durante o livro, mas sempre com aquelas grandes e comoventes histórias, nas quais uma pessoa super pobre age na maior nobreza do universo.

Enfim, como se pode notar, não foi meu tipo de leitura, embora me tenha interessado como um registro histórico, especialmente de um tema que me toca bastante, como é o caso dos nacionalismos no XIX.

P.S.: é triste ver que, desde a época em que o livro foi escrito, o professor foi sempre retratado como aquele que faz o seu trabalho por amor – e nada mais. Desde sempre tão mal remunerado!

Título original: Cuore
Ano de publicação: 1886
Idioma original: Italiano

Título em português: Coração
Ano de publicação: 2011
Editora: Cosac Naify
352 páginas

Fique agora com a abertura de Marco:

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2 ideias sobre “Café, pão de queijo e… Coração (Edmondo de Amicis)

  1. Michelle

    Eu gostei do título do post 😉
    E o tramas que se passam em internatos e colégios me agradam. Mas essa ressalva que você fez, de termos que situar bem a história, é sempre válida. Enfim… acho que eu gostaria dessa leitura.
    P.S. Ah… a capa é lindinha mesmo! ❤
    beijo

    Resposta
  2. Pingback: Panorama em leituras: fevereiro de 2014 | Biblioconto

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