Arquivo mensal: fevereiro 2014

Café, pão de queijo e… O Sol é Para Todos

Atticus Finch é um desses nomes que eu já conhecia. Associava somente ao Gregory Peck, sem ter ideia de que tipo de personagem ele era, em que história ele aparecia. Aliás, essa é a minha maneira preferida de começar a ler um livro: sem saber nada sobre a trama. Foi assim, então, que cheguei em “O sol é para todos”.

ToKillaMockingbirdPublicado originalmente nos Estados Unidos em 1960, a história de Harper Lee é contada em primeira pessoa, sob o ponto de vista de uma menina entre seus 6 e quase 9 anos de idade. É pelo olhar particular de crianças que somos apresentados às pessoas da pequena cidade de Maycomb, no estado do Alabama, nos anos 1930.

Fica clara a razão deste livro ter se tornado um clássico instantâneo nos EUA. À época de sua publicação, os movimentos no sul do país pelos direitos civis dos negros estava em evidência, com protestos e manifestações tomando formas cada vez mais definidas. “O sol é para todos” escancarou um grande problema social americano, a segregação racial, de forma delicada embora contundente.

Ao longo das páginas, vamos construindo uma ideia do que é a sociedade da pequena cidade sulista. O círculo em evidência é formado por brancos de situação financeira razoável (é o período de depressão). Nas periferias, temos os pequenos agricultores – pobres – e os negros. Aprendemos junto com as crianças o que significa pertencer a cada um desses grupos, quem excluir, como interpretar certos aspectos, seja a roupa, o modo de falar, as escolhas de vida. Os adultos, ao descreverem algo, prescrevem como se comportar perante aquilo. No entender das crianças, no entanto, o modo de pensar que nós como leitores acabamos assumindo, as explicações parecem capengas: argumentos pobres e verdades que se aplicam a uns e não a outros.

OSoléParaTodosE porque estamos vendo tudo pelos olhos dessas crianças, a figura de Atticus Finch assume aquele ar heróico que tendemos a conferir a nossos pais. E certamente é um personagem fantástico! Parte dele o fio condutor da história: colocar-se no lugar do outro. Ao tentar assumir um outro ponto de vista, evidenciam-se as diferenças, os privilégios – e as covardias.

É difícil falar muito de “O sol é para todos” sem cair em spoilers, então vou ficando por aqui. Uma leitura deliciosa, emocionante (sem ser piegas) e incrivelmente (e infelizmente) válida ainda hoje.

Título original: To kill a mockingbird
Ano de publicação: 1960
Idioma original: Inglês

Título em português: O sol é para todos
Ano de publicação: 2006
Editora: José Olympio
364 páginas
(Esgotado)

Café, pão de queijo e… Coração (Edmondo de Amicis)

(Esse título está meio canibal, meio Rainha Má da Branca de Neve, mas deu pra entender, né?)

Nessas passeadas por livrarias, físicas e virtuais, vira e mexe nos deparamos com livros que nos aparecem “sem história”: sem dicas, recomendações ou qualquer “ouvir falar”. Foi assim com “Coração”, que me ganhou por quatro motivos: a) por parecer ser uma literatura infanto-juvenil bem bonitinha; b) por ter sido um dos livros mais vendidos no Brasil entre as décadas de 1920 e 40; c) por sua aparente relevância para o meio intelectual; e d) por nada mais, nada menos que a própria capa (que não muda de cor – infelizmente – mas está disponível em três tons pastéis).

Coração (Edmondo de Amicis)

Coração” (Cuore) trata do ano letivo de Enrico, um italianinho de 11 anos que conta sobre seus professores, colegas de classe que se tornam amigos ao longo do livro, das diferentes famílias e origens sociais, da Itália unificada. Em forma de diário, o menino dia após dia narra nobres histórias com grandes lições de moral – e é exatamente aí que mora o problema.

Acredito que “Coração” deva ser lido como pertencendo ao seu contexto histórico, e é preciso ter isso sempre em mente. Há quem goste e não veja problema nesses relatos que evocam o amor à pátria, o culto ao soldado anônimo, aquela imagem idílica do professor e da escola. Quem gosta deste tipo de história certamente irá se deliciar com esta leitura. Eu, no entanto, tendo a enxergar o livro de Edmondo de Amicis como parte de um movimento de unificação italiana que não terminou nas guerras de 1860/61, mas que seguiu por muito tempo depois, na tentativa de “criar” uma identidade nacional que superasse as identidades regionais.

De Amicis se baseia, então, em três pontos: a escola, a família e o exército. São estas as três instituições que fundam a nação. Na escola, uma variedade de alunos se encontram no mesmo espaço, momentaneamente esquecidos das diferenças sociais que os separam: filhos de advogados, de lenhadores, de ex-presidiários, de comerciantes etc., convivem em paz e harmonia e recebem as mesmas lições, são tratados igualmente. Com a família são aprendidas as grandes lições de moral, de respeito. No entanto, a família está sempre abaixo da nação, a considerada “grande família”, onde todos são irmãos. Assim, o exército e o corpo de militares assume um papel central para a definição da Itália.

São, aliás, vários os momentos em que são narradas histórias na escola sobre campanhas militares, uma grande batalha ou um episódio no qual um simples soldado ou mesmo um camponês desempenham papéis heróicos nos esforços de guerra.

O autor até chega a tocar em algumas diferenças (algo raro quando se quer construir a unidade), não deixando passar desapercebido o fato de existirem várias classes sociais no mesmo espaço, mas ainda assim o faz somente para tentar despertar o sentimento de empatia. Embora incentive a compaixão, nunca se pensa o por que da situação.

Me chamaram a atenção dois pontos: em nenhum momento a religião é mencionada. Pensando num país com forte presença do catolicismo, é bastante curioso e me faz pensar na situação política italiana como realmente se contrapondo ao poder da Igreja. Outra questão interessante foi a de um conto (a cada mês o professor da turma dá um conto mensal, que nos é relatado) sobre um menino que vai à Buenos Aires procurar sua mãe que emigrou para a Argentina (esta história resultou naquele anime bem bonitinho, Marco), escancarando um problema social da Itália. Mais uma vez: não se deixa de falar na pobreza durante o livro, mas sempre com aquelas grandes e comoventes histórias, nas quais uma pessoa super pobre age na maior nobreza do universo.

Enfim, como se pode notar, não foi meu tipo de leitura, embora me tenha interessado como um registro histórico, especialmente de um tema que me toca bastante, como é o caso dos nacionalismos no XIX.

P.S.: é triste ver que, desde a época em que o livro foi escrito, o professor foi sempre retratado como aquele que faz o seu trabalho por amor – e nada mais. Desde sempre tão mal remunerado!

Título original: Cuore
Ano de publicação: 1886
Idioma original: Italiano

Título em português: Coração
Ano de publicação: 2011
Editora: Cosac Naify
352 páginas

Fique agora com a abertura de Marco:

Esboços: Vitor Cafaggi

Conheci o trabalho do Vitor Cafaggi no maior acaso do mundo. Estava na FIQ em 2011 por ocasião do lançamento da HQ de um colega de universidade (o Lipão – ou Garrocho, como ele assina – e seus companheiros Damasceno e Bruno Ito – acho que escreverei sobre eles também) para o qual eu havia contribuído através do Catarse, um serviço de crowdfunding. No mesmo stand estavam outros quadrinistas com seus primeiros trabalhos sendo publicados através do selo Pandemônio. Decidi, então, totalmente no escuro e no espírito ajudar artistas independentes e conhecer coisas novas, comprar mais algumas coisas. E foi assim que cheguei em “Valente para sempre”.

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É claro, eu estava atrasada nesse bonde. A essa altura do campeonato o Maurício de Souza já tinha encontrado os Cafaggi (a irmã também, Lu) e eles estavam anunciando no FIQ que iriam escrever e desenhar uma história para a Turma da Mônica.

Valente me ganhou. Foi uma das coisas mais bonitinhas que já tinha tido o prazer de encontrar, um lindo acaso. Fui correndo ler “As aventuras de Puny Parker”, tirinhas que têm como protagonista um pequeno Peter Parker, muito muito antes de virar o Homem Aranha. O espírito é bem parecido com o de “Valente”, com o pequeno Peter e suas desventuras amorosas atrás da Mary Jane. Uma fofura.

Valente para sempre

No ano seguinte, na Bienal do Livro de Minas, encontrei o Cafaggi mais uma vez sentado em seu stand e com mais um trabalho: o lindo “Duo.tone”. Indiscutivelmente uma das coisas mais lindas que já li na minha vida. O desenho, os traços delicados, as histórias simples, mas que remetem às lembranças mais queridas e fortes da nossa infância, aquelas memórias decisivas, que embora longe de serem grandiosas são partes fundamentais de quem somos, quem nos tornamos.

Duo.tone

Para mim, é disso que se trata o trabalho do Cafaggi. É sobre os pequenos grandes dramas da infância e da adolescência, como fica claro em seus quadrinhos mais conhecidos: “Valente” e “Laços” (história lançada para a Turma da Mônica). E ao tratar das memórias dessa época de nossas vidas ele consegue despertar as emoções mais queridas e fortes, porque de alguma forma aquilo que está relacionado à infância (e também à juventude de maneira geral) acabam se tornando as bases sobre as quais nos construímos.

Espero comentários sobre suas leituras do Cafaggi ou de quaisquer outros autores que provocam esses tipos de sentimentos! =)

Blog do Cafaggi: http://punyparker.blogspot.com.br/

Feira: Janeiro de 2014

Se no ano de 2013 eu fui uma pessoa ultra comportada no quesito compras de livros, atendo minhas leituras ao que eu já tinha na estante ou no Kindle, 2014 começa com uma amostra preocupante. Se o primeiro mês do ano ditar o tom do ano, posso dizer que daqui a onze meses estarei com um rombo bancário preocupante.

 

Cosac Naify: promoção de virada do ano

– História do pranto, Alan Pauls
– História do cabelo, Alan Pauls
– O sonho dos heróis, Adolfo Bioy Casares
– Coração, Edmondo de Amicis

 

Livraria Leitura: vi e queria imediatamente

Valente para todas, Vitor Cafaggi
Valente por opção, Vitor Cafaggi

Fnac: surto de quadrinhos (que coincidentemente estavam em alguma promoção)

Maus, Art Spiegelman
– Laços, Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi
Azul é a cor mais quente, Julie Maroh

Cosac Naify: mais promoção…

Os miseráveis, Victor Hugo
– A máquina de fazer espanhóis, Válter Hugo Mãe
– Bonsai, Alejandro Zambra
A vida privada das árvores, Alejandro Zambra

Ainda não me decidi sobre o que acho da Cosac Naify: amo por suas lindas edições e um mês de promoções, ou odeio – também pelas promoções? O problema dos descontos é que eles aparecem de uma hora pra outra e sabemos que são efêmeros, temos que nos apegar àqueles preços antes que eles desapareçam. E aí, é claro, vemos no final do mês um saldo problemático, fruto desses desesperos. E nem estou contando aqui outras compras que ainda não acharam seu caminho até minha estante….

Alguém mais enfiou o pé na jaca este mês?

Panorama em leituras: janeiro de 2014

Eu tinha grandes expectativas para o mês de férias. Só não processei o fato de que “férias” era uma palavra muito forte para o que não passava de “não ter aulas” – porque o trabalho, este impiedoso, não para nunca.

1Q84, de Haruki Murakami

1q84EN Comecei o ano terminando, finalmente, “1Q84”, do Haruki Murakami. Havia começado no ano passado e por causa da dificuldade de transportar esse tijolo (nota mental: evital edições em volume único) acabou que fui deixando de lado e de lado, até que ele ficou no standby. Já havia lido os dois primeiros livros, mas vou contabilizar como leitura de 2014 porque terminei a obra completa só agora.

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E o que dizer? Bem, difícil falar sobre esse livro, mas de maneira geral posso afirmar que foi nhé. A trama entrelaçada, cheia de mistérios, coisas estranhas e ligações curiosas me fez pensar em algo muito elaborado e que no final das contas acabou me decepcionando. A bem da verdade, não entendi o porque de tanto para tão pouco. Além disso, os personagens não me chamaram a atenção e a escrita talvez menos ainda. Uma decepção que, depois de tanto esforço, me fez desistir do Murakami por algum tempo.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
Brave New World

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E enquanto terminava “1Q84” nas horas de folga em casa, carregava na bolsa esta outra distopia. Geralmente citado junto de “1984” (George Orwell), “Admirável Mundo Novo” me pareceu mais interessante. O tipo de sociedade, o tipo de homem e controle exercido… Controle que, se parece exagerado, não é de todo absurdo. O condicionamento é algo que vira e mexe discutimos, seja para questionar nossos modos de consumo até padrões de beleza. Me pareceu uma leitura interessante e talvez tivesse aproveitado mais (porque me chocaria mais) se tivesse lido na adolescência.

Valente para Todas, de Vitor Cafaggi

ValenteParaTodasEventualmente farei um post só sobre o Cafaggi. Fica aqui então, por enquanto, o registro da minha surpresa ao entrar na Livraria Leitura e dar de cara com um display cheio de Valentes. Já tinha o primeiro, que foi minha introdução a este lindo mundo criado pelo quadrinista, então já fui pegando os outros dois (o terceiro devo estar poupando, porque nunca que me animo de ler para ter ainda algo do Cafaggi de novo me esperando!). Continua lindo, mas mais profundo ainda, falando das contradições e dúvidas de adolescentes (e adultos), em dilemas muito reais e ainda assim comoventes e engraçados.

Meio Sol Amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie
Half of a Yellow Sun

HalfOfAYellowSunPara minhas impressões completas sobre essa leitra, é só clicar aqui.

MeioSolAmareloChimamanda (sim, chamo ela nessa intimidade do primeiro nome por algum motivo desconhecido) me comoveu, me mostrou uma nova África ao falar somente sobre a Nigéria, quebrando com aquela imagem de falta de diversidade em um continente, como se ele fosse todo uniforme. Me fez experimentar um pouco da guerra, ainda que não chegue perto de ser realmente uma vivência; pensar em crenças, descrenças, do que somos ou não capazes e da imprevisibilidade de tudo: do mundo, da vida, do ser humano. Enfim, um livro muito bonito que, embora ficcional, não deixa de ser um livro de memórias.

Ainda me arrastei e continuo me arrastando na leitura de “O Passado”, de Alan Pauls, um livro profundo, um pouco complicado às vezes e que me exige um tanto mais de concentração. Comecei também no último dia o simples “Coração”, de Edmondo de Amicis, que entrou na roda justamente para ser um mini descanso e uma descontração da minha outra leitura mais profunda.

E você, o que leu neste mês?