Arquivo mensal: janeiro 2014

Café, pão de queijo e… Meio Sol Amarelo (Chimamanda Adichie)

Isto não é uma resenha. É só um “textito” no qual eu falo um pouco sobre um livro.

Acho que foi em 2009 que vi aquela famosa TEDTalk da Chimamanda Ngozi Adichie, “O perigo da histórica única”. Achei genial. No entanto, por algum motivo (e também por não estar lendo quase nada de literatura na época) nem pensei em procurá-la como autora. Na verdade, nem pensei no que era que ela fazia. Só que um dia, acho que por causa de um dos vídeos da Denise do Cem anos de literatura, o bichinho da Chimamanda me picou e eu fui correndo encomendar um livro dela no Book Depository – e sim, demorei um ano até finalmente pegar o bendito para ler.

MeioSolAmarelo

Quando peguei “Half of a Yellow Sun” (no Brasil publicado como “Meio Sol Amarelo”, pela Companhia das Letras) esperava por um livro que me confirmasse essa variedade de histórias da qual a tinha ouvido falar – e só. No entanto, foi muito mais do que isso.

Fiquei pensando no quão pouco eu conheço sobre África (e infelizmente não sou exceção). Para início de conversa, temos essa mania de via de regra nos referirmos sempre ao continente e nunca a um país ou etnia específicos, o que já é mostra do nosso desconhecimento em relação à política nos diferentes países, heranças coloniais, processos de independência diversos. Sem falar no que existia lá antes, mas principalmente no que há por lá agora, nos contextos atuais.

Em “Meio Sol Amarelo” temos os pontos de vista de três personagens: Ugwu, um menino de uma vila pobre que vai servir a um professor de uma universidade; Olanna, a mulher filha da classe média e que estudou na Inglaterra, que tem um relacionamento amoroso com o professor; e Richard, um inglês que decide ir para a Nigéria depois de se apaixonar pela arte Igbo-Ukwu e pretende escrever um livro. São três visões muito diversas, que partem de lugares bastante variados.

HalfOfAYellowSunO livro se passa nos anos 1960, antes e durante a guerra pela independência do Biafra. No entanto, “Meio Sol Amarelo” me tocou por ser uma história sobre as vidas dessas pessoas dentro daquela situação, mais do que uma ficção ambientada em contexto real: são experiências humanas, ações e reações chocantes e ao mesmo plausíveis, nas quais é possível nos reconhecermos.

Fiquei pensando nas maneiras como enfrentamos situações de perda. E gostaria de falar aqui de um outro tipo de perda, que é a perda de um ideal. Porque a impressão que me deu ao terminar de ler este livro e pensar sobre as histórias que eu li ali e na África como um todo – como um continente esquecido e maltratado, explorado e humanamente violentado –, o que ficou martelando na minha cabeça foi como a imposição do colonizador se deu, mais do que por uma repressão física, mas pela derrota das ideias. Ficou em mim essa sensação de que o homem derrotado é aquele que não tem mais em que acreditar.

Lembrei de quando estudei sobre a I Guerra Mundial. Os horrores desta guerra, após um século sem conflitos bélicos na Europa, foi chocante para os europeus e para o “mundo civilizado” porque escancarou os horrores que a situação da guerra traz e a capacidade do ser humano de atrocidades das quais ninguém ousa falar. Talvez agora eu tenha finalmente entendido isso um pouco melhor e, ao mesmo tempo, olhar para atos absurdos e indesculpáveis sem juízo de valor, pelo fato mesmo de ser até incapaz de me colocar naquela situação (o que é um ponto importante da história também).

Por fim, gostaria de salientar como a Chimamanda Adichie, a meu ver, conseguiu de maneira delicada e muito bonita dar voz às memórias da Nigéria, traçando uma imagem da sociedade da época que não pretendeu romantizar nem demonizar nenhum lado (embora não deixe de fazer duras críticas). Uma habilidade de criar personagens surpreendentes e dentro do verossímil e uma história comovente, violenta, triste, com seus momentos de leveza e muito, muito bonita.

Título original: Half of a Yellow Sun
Ano de publicação: 2006
Idioma original: Inglês

Título em português: Meio Sol Amarelo
Ano de publicação: 2008
Editora: Companhia das Letras
504 páginas

TAG: Retrospectiva Literária Sensual

RetrospectivaSensual8

Enxerida que sou, resolvi, ainda que atrasada e sem ser convidada, participar de uma tag criada pela Michelle do blog Resumo da Ópera. São várias categorias e me pareceu uma maneira legal de olhar para as leituras do ano passado com um pouquinho mais de cuidado, lembrando de tramas, personagens e outras coisas mais superficiais – como as próprias capas. Então lá vai:

A capa do ano
Nada emocionante nesta categoria. Fico com a magia da Cornelia Funke em livro não traduzido para o português, Hinter verzauberten Fenstern (algo como “Detrás de janelas encantadas”).

O título do ano
Fico com “A via crucis do corpo”, da Clarice Lispector. Dá para viajar bastante neste título, mas ele ainda assim permanece muito coerente com os 13 contos que o compõem.

A surpresa do ano
“Os vestígios do dia”, do Kazuo Ishiguro. Eu esperava algo legal, mas jamais esperaria o que tive. Entendo que muita gente não deve achar esse livro isso tudo, mas me tocou bastante e acho fantástico como o Ishiguro consegue escrever sobre personagens se lembrando e refletindo sobre suas vidas.

A decepção do ano
Infelizmente eu pensei em vários livros para encaixar aqui. Não que tenham sido livros ruins, mas simplesmente não passaram tão perto assim de tudo o que esperava deles. Elejo, no entanto, “Scott Pilgrim”, mas reconheço que pode ser problema de tradução…

A série do ano
Então, não li nenhuma série. Pula?

O livro nacional do ano
É com grande pesar que anuncio que li um livro brasileiro neste ano. Clarice Lispector, esse título vai pra você.

O autor do ano (um que você tenha lido pela primeira vez neste ano)
Mia Couto. Fiquei fascinada com a maneira como ele joga com as palavras e com a língua. Absolutamente preciso mais.

A pechincha ou a raridade do ano
Em 2013 eu comprei pouquíssimos livros. Quão pouco? Menos de 10 pouco. E todos mais ou menos na mesma faixa dos 20 e poucos reais.

O melhor desfecho
“As virgens suicidas”, do Jeffrey Eugenides. Nada espetacular, mas bonito, cruel e sensível.

O protagonista masculino do ano
Heathcliff, de “O morro dos ventos uivantes” (Emily Brontë). Eu torci por ele ao mesmo tempo que o odiava. Um personagem que viveu coisas terríveis e alimentou um sentimento de vingança e pessimismo incríveis.

O protagonista feminino do ano
Acabo de perceber que não tive protagonistas marcantes femininos. Fico então com Denise, de “O paraíso das damas” (Émile Zola). Não que ela seja particularmente interessante.

Personagem coadjuvante masculino
Lennie, de “Ratos e homens” (John Steinbeck). Me provocou uma sensação terrível pensar nele num contexto como o do livro.

Personagem coadjuvante feminino
Ms. Kenton, de “Os vestígios do dia”. Me pareceu uma mulher forte à sua maneira, ainda que numa posição de subserviência. A sutileza nas horas necessárias, a explosão… Mal posso esperar para finalmente ver o filme e a minha querida Emma Thompson na pele dela.

O pior do ano
“Saphirblau”, de Kerstin Gier. Não me parece que foi traduzido para o português, mas trata-se do segundo livro de uma trilogia em língua alemã. Não esperava muita coisa e estava lendo mais para ainda ter algum contato com a língua sem precisar fazer um esforço enorme numa alta literatura, mas definitivamente não vale a pena. É extremamente bobo.

O melhor do ano
Pergunta cruel. Fico com “O paraíso das damas”, também por ter sido o livro que mais ficou comigo durante o ano (literalmente, eu demorei horrores pra ler!).

Sua meta 2013 foi cumprida?
Não. havia estabelecido uma meta de 40 livros e acabei lendo apenas 29. Claro, tive minha rotina brutalmente alterada em relação ao ano anterior e este foi o ano do cansaço.

Qual é a sua meta para 2014?
Estabeleci duas metas:
– 35 livros e
– leituras mais seletivas.
Em dado momento estava fazendo escolhas estranhas, então decidi ser mais seletiva e desistir de certos livros famosos mas que não são, definitivamente, meu estilo (adeus, YA!).

TAG: Pense rápido – 10 livros importantes

Está circulando pelo Facebook um joguinho interessante. É para pensar rapidamente nos 10 livros que mais marcaram a sua vida, sem pensar demais. Aqui vai minha lista, em ordem de lembrança:

Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Marquez
Este foi o primeiro livro que li do Gabo. E foi marcante porque foi uma sensação completamente nova: desde o título sabemos do que vai acontecer, mas aqui temos a prova de que não é o “o que” que importa, mas o “como”. É o desenrolar do dia da vila e de Santiago Násar que me marcou, assim como o desfecho, com uma frase do morto (embora ainda vivo) que me fez tremer e abrir a boca a chorar quando terminei.

Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac
Não me lembro se já tinha lido algo do Balzac a esta altura do campeonato, mas lembro da relação de amor e ódio com o personagem, com a descrição de uma sociedade podre e meio inescapável. Tem também uma descrição do meio literário e editorial bastante interessante.

O vermelho e o negro, de Stendhal
Aí está um livro que quase me matou. Foi a primeira vez que tive tantos sentimentos diferentes em relação a um mesmo personagem, o que deu a ele o caráter mais humano que eu já tinha experimentado até então.

As brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley
Quatro livros que marcaram minha adolescência, a história dos cavaleiros contada do ponto de vista das mulheres foi minha introdução a todo um mundo mágico e personagens mundialmente conhecidos. Além disso, foi também meu primeiro contato com uma outra história que não a católica a respeito da religião, quando comecei a pensar que o que até então era óbvio pra mim, podia sim ser contestado.

Os irmãos Karamazov, de Dostoiévsky
Para ser sincera, nao me lembro de nada deste livro, apenas das relações conflituosas entre os irmãos e o pai e como fiquei pensando que aquela era uma história sem certo, muitos errados, mas poucas atitudes a serem realmente contestadas.

Viagem ao centro da Terra, de Júlio Verne
Colocaria aqui também outros livros de Júlio Verne, mas este foi o primeiro que li dele, quando super aventuras se desenrolavam frente aos meus olhos. Era um filme lido!

Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas
Capa e espada. Eu adorava isso! E apesar de não saber bulhufas de história, muito menos de história da França, achava ultra legal os episódios históricos misturados às vidas dos mosqueteiros. Incluiria também outros, como “O homem da máscara de ferro” e “O visconde de Bragelonne”.

O lobo da estepe, de Hermann Hesse
Fiquei sem chão. O “Tratado só para loucos” dentro deste livro foi aquele típico “mind blowing”, nunca imaginei que aquilo tudo podia ser dito. Algumas verdades absolutas (de tão absolutas, nem eram pensadas) contestadas com fundamento, a discussão de identidades… Dizem que é um livro pra ser lido na adolescência. Se for assim, ainda bem que li mesmo nessa época.

O inimigo secreto, de Agatha Christie
Lá pelos meus 9, 10 anos eu comecei a devorar uma mini coleção de Agatha Cristie que existia na minha casa. Achava que deveria ser muito bom, já que tínhamos vários, mas meu pai insistia que não prestava. Eu adorava. Foi com Agatha Christie que aprendi a usar “naturalmente” a torto e a direito, bem tipicamente inglesa. Este livro em particular nem tem o famoso Monsieur Poirot, mas teve o vilão mais assustador do qual me lembro: o cara mais normal do mundo, impossível de ser descrito. Tive um super calafrio quando foi revelada a identidade dele e até deixei o livro cair no chão.

O preconceito linguístico, de Marcos Bagno
Nos últimos anos da escola, minha excelente professora de português, que no dia-a-dia seguia o programa e ensinava gramática, deu esse livrinho aí pra gente. Não posso dizer que foi um choque pra mim, mas certamente este livro me marcou na medida em que me fez olhar muito mais criticamente para tudo – afinal de contas, repressão, preconceito, controle social, alienação… isso tudo estava em lugares nos quais normalmente nem pensamos.

E aí está minha lista. Para algumas pessoas deve vir tudo muito mais fácil, mas olhando agora, por alto, esta lista dá um bom panorama da minha formação como leitora. Talvez o ideal seria colocar em ordem de leitura na vida, mas talvez da maneira que está fique mais claro quais são as obras que mais se firmaram na minha vida como fundamentais.

Deixe nos comentários a sua lista!

As 5 melhores leituras de 2013

Em 2013 eu acreditei que poderia ler muita coisa. Ledo engano. Ao lado do trabalho, entrou também uma volta aos estudos e o tempo, além de ter que se esticar para as aulas, teve também que ser dividido com as leituras para a universidade. Ainda assim, deu pra escolher 5 livros que realmente marcaram. Em ordem de leitura, aqui vai:

Os vestígios do dia, de Kazuo Ishiguro
The remains of the day

VestígiosdoDiaDo mesmo autor eu já tinha lido “Não me abandone jamais”, do qual também havia gostado bastante, mas “Os vestígios do dia” me parece ter ido além no sentido de trabalhar com memórias pessoais. Neste livro, um mordomo no melhor estilo tradicional inglês relembra sua vida como criado fiel de um lord. Ao relembrar, a construção da narrativa leva mesmo a uma reflexão que aparentemente o mordomo nunca havia feito, o que o leva a repensar certos aspectos de sua vida e da de seu mestre. Além da maneira de tratar da memória, de forma tão bonita e delicada, é interessante também pensar na própria aristocracia rural inglesa e ainda nas relações com a criadagem. Para quem gosta do seriado Downton Abbey, esta é certamente uma leitura recomendável, tratando mesmo desta lealdade e confiança que os criados depositavam nas famílias as quais serviam.

O paraíso das damas, de Émile Zola
Au bonheur des dames

Após perceber que a série da BBC The Paradise era inspirada neste trabalho de Zola,OParaísodasDamas resolvi me arriscar nesta leitura. Nunca havia lido deste escritor e pelo que percebi esta faz parte de uma fase diferente daquela pelo qual ele é mais conhecido, mas de qualquer maneira me lembra a literatura francesa do XIX com a qual tive algum contato (como Balzac e Stendhal). Aqui, trata-se da história de uma jovem que chega à Paris com seus irmãos mais novos esperando encontrar trabalho no negócio de seu tio, que é alfaiate. No entanto, depara-se com a família a beira da falência e uma vizinhança que vai para o mesmo caminho, amedrontada pela instalação de um grande magazine que consegue vender tudo a preços muito mais módicos. O que me chamou a atenção neste livro foi a descrição de uma parte da sociedade parisiense: a ascenção do homem de negócios em detrimento da aristocracia; as mudanças no modo de consumo, que passa de uma mera tarefa doméstica como qualquer outra para uma experiência prazerosa – e também cheia de supérfluos; o nascimento de um outro tipo de ator urbano, o empregado do comércio, que não trabalha com o corpo, está em contato com extratos sociais mais elevados, embora jamais vá chegar a pertencer a estes círculos, e passa a ser também consumidor daquilo que vende. Enfim, há certamente muito mais dentro desta obra, mas penso que estes são aspectos que mais me tocaram.

O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman
The ocean at the end of the lane

OOceanonoFimdoCaminhoEu estava em um caminho com o Neil Gaiman totalmente diferente. Após tentar engatar “Deuses americanos” sem sucesso (haverá nova tentativa), pensei que ele estava se consolidando como o excelente autor de “Sandman” e de lindas histórias infantis. Mas aí veio este livro. Apesar de ter um protagonista criança, é uma leitura para adultos, mas para o adulto que está relembrando, tentando resgatar algumas coisas que se perderam no processo de crescer, como acreditar facilmente no mágico e no absurdo.

O fio das missangas, de Mia Couto

OFiodasMissangas

Desses livros que ficaram sentadinhos na prateleira por períodos inexplicáveis, esse Mia Couto esteve aqui por uns bons 2 anos antes de finalmente ser lido. Na minha tentativa no fim do ano de variar um pouco as leituras, decidi partir para a África e certamente foi uma das melhores decisões que tomei. Trata-se de um livro de contos, uma das minhas maneiras preferidas de conhecer novos autores. Me lembrou muito os autores latino-americanos, naquela maneira cara de pau de dizer absurdos (como diria o Gabo). Mas o mais interessante do Mia Couto é a forma como ele trabalha a língua, torce e destorce palavra, inventa, usa inesperadamente uma palavra num contexto no qual não estamos acostumados. Me disseram que isso é coisa do Guimarães Rosa (que não li ainda nesta vida!), então aí estão dois autores a serem lidos num futuro muito próximo.

Ratos e homens, de John Steinbeck
Of mice and men

RatoseHomensPor dica do canal literário do Youtube Ratos Letrados resolvi finalmente me aventurar neste exemplar tão minguado que está juntando traça e poeira na minha casa desde que me entendo por gente (realmente acredito que ele habita por aqui desde antes de eu nascer). Me surpreendeu que um escritor norte-americano se engajasse numa crítica social tão pesada. O livro trata das vidas de alguns trabalhadores do campo na Califórnia da década de 1930, acompanhando suas vidas de trabalho, seus sonhos e a dura realidade. Do título à descrição da paisagem quente e seca, do isolamento desses homens do meio urbano “civilizado”, a impressão que eu tive durante a leitura foi realmente a de que o homem (ou pelo menos aquele homem do livro, o homem da lavoura) é nada, está mais próximo de um animal. Foi realmente uma dessas leituras de deixar uma sensação de mal-estar – o que eu tendo a considerar como bom, já que o livro permanece com a gente depois de terminada a leitura.

E bom, foi esta a minha seleção de livros de 2013. Deixe nos comentários suas leituras preferidas do ano passado! Acho ótimo dar uma “fuçada” nas preferências alheias… =)